Cagrilintida: o peptídeo do CagriSema que supera a semaglutida
Combinado à semaglutida na fórmula do CagriSema, o novo peptídeo da Novo Nordisk levou a mais perda de peso que o Ozempic isolado nos estudos de fase 3; entenda o mecanismo e quando pode chegar ao Brasil
Cecília Pradodo CityTudo4 de setembro de 2026 · 6 min de leitura

Enquanto a semaglutida e a tirzepatida já são nomes conhecidos do público, um peptídeo mais novo vem chamando atenção da comunidade médica: a cagrilintida, componente que, combinado à própria semaglutida na fórmula batizada de CagriSema, levou a uma perda de peso média de 22,7% do peso corporal nos estudos de fase 3 da Novo Nordisk, contra 16,1% da semaglutida usada sozinha. O resultado reacendeu o debate sobre até onde a nova geração de peptídeos emagrecedores pode chegar.
O que é a cagrilintida
Diferente da semaglutida e da tirzepatida, que imitam hormônios intestinais como o GLP-1 e o GIP, a cagrilintida é um análogo sintético da amilina, um hormônio produzido pelo pâncreas junto com a insulina. Por atuar em uma via biológica diferente das demais, ela não substitui os peptídeos já conhecidos: ela os complementa, o que é justamente a lógica por trás do CagriSema, medicamento que combina cagrilintida e semaglutida em uma única aplicação semanal.
Como o peptídeo age no cérebro
O mecanismo de ação da cagrilintida explica por que a combinação supera cada substância isolada. Segundo explicações médicas sobre o composto, a cagrilintida age nos receptores de amilina, retardando o esvaziamento gástrico, suprimindo a liberação de glucagon após as refeições e promovendo saciedade por meio da área postrema, uma região do tronco cerebral ligada ao controle do apetite, enquanto a semaglutida atua principalmente no hipotálamo. As duas vias, cerebrais mas distintas, se somam: uma reduz a fome no centro de controle do apetite, a outra reforça a sensação de estômago cheio por um caminho diferente, o que explica o efeito aditivo observado nos estudos.
Os números dos estudos de fase 3
Os ensaios do programa REDEFINE, da Novo Nordisk, mostraram perda de peso de aproximadamente 20% em 68 semanas com o CagriSema, resultado superior ao da semaglutida isolada. Já o programa REIMAGINE, voltado a pessoas com diabetes tipo 2, demonstrou redução significativa da hemoglobina glicada (HbA1c) e do peso corporal em múltiplos estudos, com todos os desfechos primários e secundários confirmatórios atingidos. Em estudos anteriores, quando testada isoladamente, sem a semaglutida, a cagrilintida já havia mostrado redução de quase 10% do peso corporal, o que reforça que parte relevante do resultado do CagriSema vem do próprio peptídeo, e não só da combinação com um medicamento já conhecido.
Quando pode chegar ao mercado
A Novo Nordisk protocolou pedido de registro junto à agência americana FDA em dezembro de 2025, com decisão regulatória esperada para o quarto trimestre de 2026. Isso significa que, mesmo em caso de aprovação nos Estados Unidos ainda neste ano, o caminho até a chegada ao Brasil deve seguir o mesmo processo enfrentado por outros peptídeos dessa geração: primeiro o registro em mercados como o americano e o europeu, depois o pedido formal à Anvisa, que costuma levar meses ou anos adicionais de análise.
Como a cagrilintida se encaixa no mapa dos peptídeos
A chegada da cagrilintida amplia um cenário que já reúne diversas apostas da indústria farmacêutica contra a obesidade. Ela se soma a peptídeos como a retatrutida, agonista triplo que já mostrou perda de até 31,9 kg em estudo de fase 3, e a survodutida, que combina GLP-1 e glucagon e reduziu 34% da gordura visceral em outro ensaio. A diferença é que a cagrilintida não compete diretamente com essas moléculas: por atuar em uma via hormonal distinta (amilina, em vez de GLP-1, GIP ou glucagon), ela abre a possibilidade de combinações ainda mais potentes no futuro, unindo diferentes mecanismos em uma mesma aplicação.
Efeitos colaterais e cuidados
Como os demais peptídeos dessa classe, o CagriSema não é isento de efeitos colaterais, e os relatos mais comuns nos estudos seguem o padrão já visto com semaglutida e tirzepatida: náusea, diarreia e desconforto gastrointestinal, mais frequentes no início do tratamento e durante o ajuste de dose. Por atuar em uma via hormonal adicional, a combinação exige acompanhamento médico ainda mais próximo do que os peptídeos já registrados, já que os efeitos de longo prazo da amilina sintética em uso combinado com GLP-1 continuam sendo monitorados nos próprios estudos em andamento.
O peso da concorrência entre farmacêuticas
O avanço da cagrilintida também precisa ser lido dentro da disputa comercial entre Novo Nordisk e Eli Lilly, as duas gigantes que dominam o mercado de peptídeos emagrecedores. Enquanto a Novo Nordisk aposta na combinação de amilina com GLP-1 para reconquistar espaço depois de a tirzepatida da Lilly ter superado a semaglutida isolada em estudos comparativos diretos, a própria Lilly segue testando a retatrutida, seu agonista triplo. Esse tipo de corrida tende a beneficiar o paciente no médio prazo, com mais opções e preços potencialmente mais competitivos quando os medicamentos finalmente chegam ao mercado, mas também reforça por que tantos nomes novos de peptídeos aparecem nos noticiários de saúde quase todo mês.
Ainda não é hora de procurar a cagrilintida no Brasil
Enquanto o CagriSema não recebe registro em nenhum mercado, qualquer produto oferecido como “cagrilintida” no Brasil, seja em clínicas de estética, seja em sites de importação, não tem garantia de origem, dosagem ou segurança. O padrão observado com outros peptídeos em fase de estudo, como a mazdutida, aprovada apenas na China e ainda sem previsão de chegada ao país, tende a se repetir: o acesso responsável só deve acontecer depois do registro sanitário formal, com prescrição e acompanhamento médico, nunca por canais informais.
Para entender como a cagrilintida se compara aos demais peptídeos emagrecedores, já aprovados ou ainda em estudo, o guia completo sobre a classe de medicamentos GLP-1, GIP e glucagon reúne o panorama atualizado de cada substância.
A amilina não é uma novidade completa na medicina
Apesar de a cagrilintida ser recente, a amilina como alvo terapêutico não é exatamente inédita. A pramlintida, análogo de amilina de ação curta, já é aprovada há anos em outros países para uso combinado com insulina no tratamento do diabetes tipo 1 e tipo 2, embora nunca tenha alcançado a popularidade dos medicamentos à base de GLP-1. A diferença da cagrilintida para essa geração anterior está na duração do efeito: enquanto a pramlintida precisa ser aplicada antes de cada refeição, a cagrilintida foi desenhada para ação prolongada, permitindo uma única aplicação semanal, o mesmo padrão de conveniência que popularizou a semaglutida e a tirzepatida.
Por que a combinação interessa tanto à indústria
Do ponto de vista da indústria farmacêutica, medicamentos que combinam dois mecanismos em uma única aplicação têm uma vantagem comercial clara sobre terapias que exigiriam duas injeções separadas: maior adesão do paciente ao tratamento e, potencialmente, resultados superiores aos de qualquer peptídeo isolado. É essa lógica que também motiva outras farmacêuticas a testar combinações semelhantes, ampliando a corrida por moléculas que consigam repetir ou superar os números do CagriSema nos próximos anos.


