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Cardiologia mundial redefine o conceito de infarto e reforça: só exame de sangue alterado não fecha o diagnóstico

Nova diretriz internacional publicada nesta sexta-feira (28) no European Heart Journal troca a antiga divisão em cinco tipos de infarto por três categorias e passa a adotar limites de troponina diferentes para homens e mulheres

Cecília PradoCecília Pradodo CityTudo

29 de agosto de 2026 · 5 min de leitura

Cardiologista mostra a uma colega o traçado de um eletrocardiograma em monitor, em consultório hospitalar bem iluminado (imagem ilustrativa)

Um mesmo resultado de troponina alta no sangue pode significar um infarto, ou uma entre mais de uma dezena de outras condições que nada têm a ver com entupimento de artéria. É em torno dessa distinção que as principais sociedades de cardiologia do mundo reorganizaram a forma de definir e classificar o infarto do miocárdio, segundo reportagem publicada pelo g1. A mudança está na 5ª Definição Universal de Infarto do Miocárdio, publicada nesta sexta-feira (28) no periódico European Heart Journal, elaborada em conjunto pela Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC), pelo American College of Cardiology (ACC), pela American Heart Association (AHA) e pela World Heart Federation (WHF), com especialistas de 12 países e cinco continentes.

Cinco tipos viram três categorias

O documento aposenta a classificação que separava os infartos em tipos 1, 2, 3, 4 e 5 e passa a agrupá-los conforme o mecanismo que desencadeou a lesão no coração. O infarto primário nasce em uma alteração aguda da própria artéria coronária, como o rompimento de uma placa de aterosclerose. O secundário aparece quando outra doença desequilibra a relação entre o oxigênio que chega ao coração e o de que ele precisa, como em uma anemia grave ou uma pressão muito baixa. Já o infarto relacionado a procedimento surge como complicação de uma intervenção cardíaca, como a colocação de um stent ou uma cirurgia de revascularização. O antigo tipo 3, que classificava mortes cardíacas em que o infarto era a causa provável mas o paciente morria antes da confirmação por exame, deixa de existir e passa a ser enquadrado em uma das três novas categorias.

Para o cirurgião cardiovascular Ricardo Kazunori, da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo, citado pela reportagem, amarrar a classificação à origem do infarto é o avanço mais direto da revisão, porque mecanismos distintos podem pedir investigação e tratamento diferentes.

Por que a troponina sozinha não basta

A troponina é uma proteína do músculo cardíaco que escapa para o sangue quando as células do coração se lesionam, e funciona como o principal marcador de lesão miocárdica. Pela nova definição, existe lesão miocárdica aguda quando os níveis do marcador sobem e/ou caem ao longo das medições e ao menos um resultado ultrapassa o percentil 99 de referência do exame. Mas isso, por si só, não equivale a um infarto: a troponina também sobe em situações como miocardite, sepse, insuficiência cardíaca aguda, embolia pulmonar, hipertensão grave, síndrome de Takotsubo, AVC, crises epilépticas, exercício físico intenso e alguns tratamentos contra o câncer.

A fronteira está na isquemia. Segundo Kazunori, se o marcador sobe e há critérios de isquemia, cabe falar em infarto; se sobe sem esses critérios, é preciso procurar outra causa. Para fechar o diagnóstico, o médico precisa avaliar sintomas compatíveis, alterações novas no eletrocardiograma e exames de imagem além da troponina, já que o próprio consenso reconhece que nenhum critério isolado dá conta de todos os casos.

Limites diferentes para homens e mulheres

A nova definição também passa a reforçar o uso de limites de troponina específicos por sexo. O percentil 99 de referência costuma ser mais baixo entre mulheres, e aplicar um único ponto de corte aos dois sexos abre espaço para que lesões cardíacas, infartos inclusive, deixem de ser reconhecidas em algumas pacientes. Segundo o consenso, adotar valores por sexo reduz esse viés e o risco de subdiagnóstico feminino, já que o ponto de corte é o que define quais pacientes seguem para investigação adicional e quais são liberadas.

Outro conceito revisto é o MINOCA, sigla para pacientes com lesão cardíaca e coronárias sem obstrução importante. A 5ª definição passa a tratá-lo como um diagnóstico de trabalho, uma etapa da investigação e não o fim da linha: encontrar troponina alta sem obstrução significativa não encerra a busca pela causa, e exames como a ressonância magnética cardíaca ajudam a diferenciar um problema coronariano de outras doenças que também agridem o músculo do coração.

Um mundo com acesso desigual a exames

O pano de fundo da revisão é um contraste global: em 2021, o mundo registrou 31,9 milhões de novos casos de doença isquêmica do coração, 31,8% a mais do que em 2010, enquanto o acesso aos recursos para diagnosticar um infarto segue desigual. Um estudo citado no consenso mostrou que, em Uganda, apenas 43% dos serviços de saúde avaliados tinham dosagem de troponina disponível e 55% dispunham de eletrocardiograma.

Para esses lugares, a nova diretriz fixa critérios próprios: o diagnóstico pode ser presumido quando o paciente tem sintomas compatíveis com isquemia somados a alterações características no eletrocardiograma, mesmo sem exame de troponina ou imagem avançada disponível. Elzo Mattar, diretor do Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e professor da Faculdade Estadual de Medicina de São José do Rio Preto, destacou à reportagem que autorizar esse diagnóstico presumido ajuda o profissional de uma região carente a agir a tempo, evitando que alguém em pleno infarto seja liberado sem tratamento.

O que muda na prática

A nova classificação também foi construída em conjunto com a Organização Mundial da Saúde e propõe códigos da CID-11 capazes de diferenciar infartos primários, secundários e relacionados a procedimentos. A expectativa dos autores é que, ao reduzir as categorias e prendê-las ao mecanismo que causou a lesão, as estatísticas de internação e mortalidade passem a refletir melhor o que o médico encontra no atendimento, hoje um problema conhecido: em dois países europeus, menos de 20% dos pacientes que preenchiam os critérios da antiga definição para o tipo 2 chegaram a receber um código de infarto no sistema de classificação de doenças.

Fontes

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