Prazo do passaporte de Flávio Bolsonaro vence e PF checa Argentina
Senador derrotado na eleição não entregou o documento até as 11h de terça (27), a Polícia Federal pediu ajuda a Buenos Aires e o governo Milei diz que não há registro de entrada dele no país
27 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

O prazo para entregar o passaporte de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Polícia Federal terminou às 11h desta terça-feira (27) sem que o documento chegasse às mãos da PF. O senador descumpriu a ordem do ministro Alexandre de Moraes, do STF, segundo o g1. Dois dias depois de perder a eleição para Lula, ele virou o centro de uma checagem que mistura decisão judicial, rumor de viagem e nota oficial de um governo estrangeiro.
O que Moraes determinou
A decisão é da noite de domingo (25), no inquérito em que Flávio e o advogado Willer Tomaz são investigados por lavagem de dinheiro, num suposto esquema que envolveria empresas do jurista e casas de apostas, as bets. Os dois confirmam que são amigos, mas negam que sejam sócios e negam qualquer irregularidade.
Segundo o g1, a ordem tem três pontos: proibição de contato entre o senador e Willer Tomaz, cancelamento de todos os passaportes brasileiros de Flávio, inclusive o diplomático, e entrega em até 24 horas de qualquer passaporte de outra nacionalidade que ele tenha. A CNN Brasil, que teve acesso ao conteúdo da decisão sigilosa, também relata o cancelamento do passaporte brasileiro e a proibição de sair do país.
Flávio foi intimado pela PF na manhã de segunda-feira (26). Em vídeo nas redes sociais, contou que a abordagem aconteceu na rua, na porta da casa onde o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, cumpre prisão domiciliar. “Hoje de manhã eu fui visitar o meu pai. […] A Polícia Federal do Lula estava na porta da casa dele e, no meio da rua, eu fui intimado a entregar os meus passaportes e também estou proibido de deixar o país”, disse.
A defesa do senador e o papel de Eduardo
No mesmo vídeo, Flávio atacou o fundamento da decisão. Disse que Moraes se baseou numa fala do irmão, Eduardo Bolsonaro, de 23 de outubro, sugerindo que ele deveria deixar o país se perdesse a eleição. “Eu nunca falei isso. Isso é motivo para tirar meu passaporte? Isso é Justiça?”, questionou, segundo o g1. Ele afirmou que seguirá na oposição ao governo Lula e que não será calado.
A CNN Brasil lembra que Eduardo publicou na sexta-feira anterior uma sugestão de que o irmão poderia sair do Brasil em caso de derrota, e que o senador diz nunca ter manifestado essa intenção. A defesa de Flávio confirmou à emissora o horário fixado pela PF para a entrega. Segundo os advogados, ele receberia o documento nesta terça para tratar do assunto, o que não aconteceu, e a equipe jurídica afirmou não ter conseguido contato com o senador ao longo do dia.
A suspeita de viagem e a resposta da Argentina
A madrugada trouxe o novo capítulo. O site argentino Infobae publicou que Flávio teria cruzado a fronteira por Puerto Iguazú, usando a carteira de identidade, e seguiria dali para os Estados Unidos num jato Gulfstream G400, matrícula LV-JQW, da empresa Baires Fly S.A. A informação não foi confirmada por nenhuma autoridade.
A reação veio em duas frentes. A Direção Nacional de Imigrações do governo argentino disse ao g1: “Informamos que não há registro de entrada de Flávio Nantes Bolsonaro no país”. O órgão acrescentou que abriu procedimentos de fiscalização da aeronave citada e de sua tripulação e que “não foi apresentado nenhum plano de voo que incluísse membros da família Bolsonaro”. Um porta-voz de Javier Milei também negou à agência Bloomberg que o senador tenha entrado na Argentina, conforme o g1. Ao repórter da CNN em Buenos Aires, o Ministério da Segurança argentino disse que Flávio nem entrou nem pediu para entrar no país.
O rastreamento de voos ajuda pouco. Pelo FlightRadar24, a aeronave citada decolou de Buenos Aires, pousou em Puerto Iguazú às 23h45 (horário de Brasília) e, até a publicação da reportagem do g1, não tinha saído da cidade. A plataforma, porém, permite que voos privados ocultem o trajeto.
O que a PF checa no Brasil
O blog da jornalista Andréia Sadi, no g1, informou que a PF apura se Flávio deixou o país. Segundo o blog, não há registro de passagem dele por nenhum ponto regular de controle migratório brasileiro, e fontes da PF em Foz do Iguaçu dizem o mesmo. A assessoria do senador nega que ele tenha saído do Brasil. Procurada pelo g1, a equipe não respondeu aos questionamentos da reportagem.
A CNN Brasil apurou que o governo brasileiro acionou as autoridades argentinas por temor de uma eventual fuga e que a PF consulta os registros dos postos regulares de fronteira. Até a manhã desta terça, o governo não tinha informação sobre o paradeiro do senador. Ausência de registro em posto de fronteira não prova, por si só, que a pessoa continua no país, mas também não confirma a viagem, e é por isso que as checagens seguem.
Aliados pedem esclarecimento
Segundo a CNN Brasil, o sumiço de Flávio incomoda os próprios aliados. Integrantes do PL avaliam que a especulação sobre uma saída do Brasil faz mal ao bolsonarismo, e parlamentares cobram um vídeo ou uma nota que esclareça a situação. Aliados dizem à emissora que procuraram o senador e não tiveram notícia dele.
A emissora também relata um desconforto no entorno do senador com a nota em que o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, reconheceu o resultado da eleição. Na segunda-feira, segundo a CNN, Flávio recalibrou o discurso: anunciou que pediria no TSE a cassação da chapa Lula-Alckmin e que faria da Câmara e do Senado uma “fortaleza contra a barbárie”. Na mesma gravação, afirmou que entregaria o passaporte.
Os inquéritos que seguem no Supremo
Segundo a CNN Brasil, Flávio responde a três inquéritos no STF: um por calúnia contra Lula, um sobre o financiamento do filme “Dark Horse” e outro sobre a associação com Willer Tomaz, por lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Os relatores são Alexandre de Moraes e André Mendonça.
No caso de Tomaz, a suspeita central da PF, de acordo com a CNN, é que o senador teria participação econômica e societária em empresas do advogado, principalmente a Alcazar Holding, na qual Flávio constaria como “usuário master” de uma conta bancária. A PF identificou movimentações de R$ 130 milhões entre março e maio de 2025, valor que considera incompatível com as atividades econômicas conhecidas do senador. Tomaz, que hoje mora nos Estados Unidos, já foi alvo de busca e apreensão na Operação Sem Desconto, sobre irregularidades no INSS.
No caso “Dark Horse”, o g1 informa que Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, hoje preso, teria transferido cerca de R$ 61 milhões para a produção da cinebiografia de Jair Bolsonaro a pedido do senador. A PF investiga lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção, entre outros possíveis crimes. A defesa afirma que a doação seguiu os trâmites legais, foi feita entre entes privados e não usou dinheiro público.
O que muda com o fim do mandato
O mandato de senador termina em fevereiro de 2027, e Flávio ficará sem cargo público pela primeira vez em 24 anos. O analista de política da CNN Teo Cury explicou que o STF mudou, no ano passado, o entendimento sobre o foro por prerrogativa de função. Por maioria, os ministros decidiram que o parlamentar que deixa o cargo continua respondendo no Supremo pelos crimes investigados. A tendência é que os três inquéritos permaneçam na Corte.
Os próximos passos dependem de duas respostas. A PF precisa dizer se o senador está no Brasil e se o passaporte será entregue, e Moraes pode decidir como tratar o descumprimento do prazo. Até a última atualização das reportagens citadas, nenhuma das duas respostas havia saído.


