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Marcelo Aguiar vai ao Conselho de Ética da Alesp após tiro em bar

Deputado estadual do PL foi liberado sem flagrante formalizado após disparo no Itaim Bibi que atingiu de raspão o apresentador Fred Bruno. A Alesp abriu apuração sobre a placa oficial usada em carro fora da frota, e a polícia ainda não fechou se o tiro foi acidental

Redação Políticaassinatura da editoria

20 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

Salão de um bar em São Paulo iluminado pela luz do dia, com mesas, banquetas e uma fita de isolamento amarela e preta atravessada na entrada

O deputado estadual Marcelo Aguiar (PL) será alvo de análise no Conselho de Ética da Assembleia Legislativa de São Paulo, depois de uma madrugada de segunda-feira (19) que terminou com um tiro dentro de um bar no Itaim Bibi, na Zona Sul da capital. Segundo o g1 SP, a Alesp informou em comunicado que cabe agora ao conselho examinar a denúncia, apresentada ainda na segunda pelas deputadas estaduais Ediane Maria e Monica Seixas, ambas do PSOL. O disparo atingiu de raspão o apresentador Fred Bruno, do Globo Esporte SP, que estava no local.

A história reúne três frentes que andam em paralelo e com ritmos diferentes: a investigação criminal do tiro, a apuração administrativa sobre uma placa oficial e o processo político dentro da Casa. Nenhuma delas está concluída, e há versões que se contradizem.

O que aconteceu no bar

O caso ocorreu no bar Santo, antigo Santo Cupido. De acordo com testemunhas ouvidas pelo g1, o parlamentar parecia embriagado e tocava mulheres no estabelecimento. Uma frequentadora que não quis se identificar contou que ele estava “absurdamente bêbado”, segurava uma taça de vinho que balançava e tentava pegar na mão e no cabelo de ao menos duas clientes. Um amigo delas pediu que ele parasse, e dois ou três homens desceram do camarote para tirar satisfação.

É nesse ponto que as versões se separam. A testemunha disse ao g1 que viu o deputado cair “literalmente de testa no chão” e que o disparo veio enquanto ele caía. O boletim de ocorrência da Polícia Militar, também obtido pelo g1, registra que ele “se sentiu acuado e sacou uma arma de fogo e efetuou um disparo que não atingiu ninguém”. A Polícia Civil trabalha com a hipótese principal de disparo acidental, durante a queda, mas o registro da PM descreve o tiro como deliberado, feito para se defender.

Em depoimento na delegacia, Aguiar atribuiu o mal-estar a medicamentos e afirmou que, “caso tenha ocorrido algum disparo proveniente de sua arma, este se deu de maneira acidental”. Ele não mencionou consumo de bebida alcoólica. A assessoria do deputado divulgou nota dizendo que ele estava “sob efeito de medicamentos fortes, que provocaram uma reação adversa” e negando que tenha sido preso.

O tiro que atingiu Fred Bruno

Fred Bruno não sabia de imediato o que tinha acontecido. Em vídeo publicado nas redes e relatado pelo g1, ele contou que ouviu “um barulho muito forte, tipo um ‘pof’”, sentiu “uma queimação muito estranha” no pé e passou a mancar. O disparo atingiu o tênis do apresentador e causou inchaço. Ele não comandou o Globo Esporte na segunda e a previsão da emissora era de retorno nesta terça (20).

O apresentador disse que procurou assessoria jurídica e um médico para produzir um laudo, que será entregue à delegacia. “Um fato desse não pode ser passado impune”, declarou. Ele também afirmou que o episódio “poderia ter sido mil vezes pior” e falou em uma pessoa “completamente despreparada para ter uma arma em mãos”.

Há uma diferença de descrição entre os veículos sobre a natureza do ferimento. O g1 fala em disparo que atingiu de raspão o apresentador. O Terra, em reportagem sobre o relato de Fred Bruno, usa o termo “estilhaço”. O laudo médico que o apresentador prometeu levar à polícia deve esclarecer a diferença.

Por que o deputado foi liberado

Marcelo Aguiar foi levado à delegacia amparado por policiais, mas saiu logo depois. A CNN Brasil informou que a autoridade policial citou a imunidade parlamentar e avaliou que não havia elementos de crime inafiançável, o que impede a prisão em flagrante de um deputado estadual. Por isso o flagrante não foi formalizado. O g1 registra ainda que ele não passou por exame de embriaguez.

A pistola calibre .380, que o deputado tem autorização para portar, foi apreendida para perícia. A Secretaria da Segurança Pública informou em nota que a Polícia Civil vai pedir as imagens das câmeras do bar e ouvir testemunhas e eventuais vítimas. O relatório da PM traz ainda um detalhe sobre a casa: o chefe de segurança disse que o parlamentar se identificou como deputado na entrada, não passou por revista e não avisou que estava armado.

A advogada Fernanda Perregil, doutoranda em Direito na PUC-SP, disse ao g1 que o comportamento descrito pelas testemunhas, a depender das circunstâncias, pode configurar assédio ou importunação sexual, e que cada hipótese exige análise específica.

A placa da Alesp em um carro fora da frota

A segunda frente nasceu da reportagem da TV Globo. O g1 mostrou que o deputado dirigia um BYD preto com placa oficial da Alesp, mas essa mesma placa aparece no site da Casa como registrada em um Toyota Corolla oficial, pago com dinheiro público. O portal de transparência lista apenas dois modelos por contrato: o Corolla e o Fiat Fastback.

Pelas regras apuradas pelo g1, um deputado pode usar a verba de gabinete para alugar um carro fora do contrato da Casa. Para usar placa oficial, porém, precisa devolver o carro do contrato e cadastrar o novo veículo no sistema da Assembleia, o que não consta para o BYD. Circular com sinal identificador falso pode configurar adulteração de sinal identificador de veículo, com pena de 3 a 6 anos de reclusão e multa.

A Alesp declarou que o veículo “não faz parte da frota oficial” e abriu apuração interna. O boletim de ocorrência não registra a placa, e a SSP disse que apura o uso de “possíveis placas adulteradas”, circunstância que, segundo a pasta, não foi relatada à autoridade policial durante o plantão.

Quem é o deputado e o que vem a seguir

Aos 53 anos, Marcelo Aguiar é cantor sertanejo gospel e ganhou notoriedade no grupo Renascer Praise, ligado à Igreja Renascer em Cristo. Segundo o perfil publicado pelo g1, foi vereador de São Paulo em 2008 e deputado federal a partir de 2010. Assumiu a vaga na Alesp em janeiro de 2025, como suplente, e integra a Comissão de Constituição, Justiça e Redação e a bancada evangélica. Filiou-se ao PL em 16 de março de 2026. Horas antes do episódio, participou de um ato na Avenida Paulista em apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro, na reta final do segundo turno.

Depois do caso, a CNN Brasil informou que ele deixou o perfil nas redes privado. A CNN Brasil procurou as assessorias do deputado e do PL e não obteve retorno.

Os próximos passos são previsíveis, ainda que sem data. A perícia na pistola e a análise das imagens das câmeras devem indicar se o disparo foi acidental, o que pesa na definição do enquadramento. O Conselho de Ética precisa decidir se aceita a denúncia do PSOL e abre processo. A SSP ainda deve responder por que a placa e a ausência de teste de bafômetro ficaram fora do registro inicial. Os relatos de importunação a mulheres, se formalizados por alguma das vítimas, abrem uma linha de investigação própria.

Fontes

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