Lula reeleito com 51,79%: Flávio contesta, PL reconhece
Presidente vence o segundo turno por 4,4 milhões de votos, ganha em 13 estados e vê a Bolsa cair quase 14% no dia seguinte. Flávio troca o pedido de anulação por ação de cassação
26 de outubro de 2026 · 7 min de leitura

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno deste domingo (25) e vai governar o país por mais quatro anos. Com 100% das seções apuradas, o TSE registrou 64.256.232 votos para Lula, ou 51,79% dos válidos, contra 59.826.041 para o senador, 48,21%. A diferença ficou em 4.430.191 votos, segundo o levantamento por estado da Bloomberg Línea com base nos dados do tribunal.
A noite terminou sem reconhecimento do derrotado. Flávio disse ser “impossível reconhecer o resultado das eleições” e anunciou que pediria a anulação do pleito. Na segunda-feira (26), o PL, partido dele, fez o contrário e aceitou a vitória de Lula em nota. No mercado, o Ibovespa teve a maior queda diária desde março de 2020.
Os números de Lula reeleito
O resultado inverte o primeiro turno, em que Flávio terminou na frente. Segundo o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, o senador tinha vantagem de 2,2 milhões de votos na primeira rodada, como registrou o Metrópoles. Lula virou o placar em três semanas.
O comparecimento foi de 128,2 milhões de eleitores, 80,8% dos 158,7 milhões aptos a votar. A abstenção caiu para 19,21%, o menor índice desde 2006, e os votos em branco e nulos também recuaram. A CNN Brasil contabilizou 1,12% de brancos (cerca de 1,4 milhão de pessoas) e 2,12% de nulos (cerca de 2,7 milhões). No primeiro turno, em 4 de outubro, os brancos foram 1,84% e os nulos, 2,93%, com abstenção perto de 21%.
Onde cada um venceu
O mapa repetiu a divisão que marca as disputas presidenciais desde 2006. Lula ganhou em 13 estados, com todo o Nordeste, três estados do Norte e Minas Gerais. As maiores votações dele vieram do Piauí (75,88%), da Bahia (71,31%) e do Maranhão (69,54%). Pernambuco, terra natal do presidente, deu 69,20%. No Norte, Lula levou Pará (55,02%), Amazonas (54,02%) e Amapá (52,88%).
Minas Gerais, estado que costuma antecipar o resultado nacional, ficou com Lula por margem curta: 50,43% a 49,57%. Foi o único estado do Sul e do Sudeste em que o petista saiu na frente.
Flávio venceu em outros 13 estados e no Distrito Federal. O desempenho mais forte foi em Roraima (72,46%), Rondônia (69,61%) e Santa Catarina (69,42%). Ele também ganhou nos três maiores colégios do Centro-Sul fora de Minas: São Paulo (53,85%), Rio de Janeiro (53,10%) e Paraná (62,58%). No Distrito Federal, o senador teve 54,28%, sempre de acordo com a tabela da Bloomberg Línea.
A prorrogação que virou o argumento de Flávio
O domingo teve um episódio sem precedente recente. O ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, mandou estender a votação até as 19h em todo o país, duas horas além do horário oficial de encerramento. A decisão atendeu a uma ação da campanha de Lula, que relatou falta de transporte coletivo em várias cidades, informou a Agência Brasil. Zanin citou “a gravidade dos fatos narrados”. O TSE paralisou a totalização às 17h06, com 1.225 das 499.248 seções apuradas.
O Poder360 reconstituiu a cronologia: a coligação de Lula pediu ao TSE às 13h22 mais tempo em municípios da Bahia sem ônibus, ampliou o pedido para todos os estados às 15h42 e foi ao STF às 16h22. Às 15h50, a equipe do PL também protocolou pedido próprio no TSE, citando chuva, alagamentos, bloqueios em estradas e falta de energia, para estender a votação em 19 cidades de São Paulo, do Paraná e de Santa Catarina. Depois da decisão, Zanin esclareceu que a prorrogação valia só para os locais onde as urnas ainda não tinham sido fechadas. O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, mandou as seções abertas funcionarem até as 19h.
Foi esse o ponto que Flávio usou para rejeitar o resultado. Em declaração relatada pela Jovem Pan, ele chamou a decisão de “inaceitável”, disse que ela “muda a regra do jogo no meio do jogo” e afirmou que “houve uma quebra total de isonomia entre os brasileiros de diversas cidades e diferentes estados”. O senador acrescentou que nunca saberá quantos votos teria tido num estado em que as urnas não foram reabertas. “Nós vamos usar o nosso jurídico para pedir a anulação dessas eleições”, disse, segundo o Metrópoles.
O discurso de Lula
Lula falou por volta das 22h20, num auditório do hotel InterContinental, em São Paulo, ao lado do vice Geraldo Alckmin, também reeleito, e do deputado André Janones, que coordenou a campanha nas redes. Depois seguiu para a Avenida Paulista, onde apoiadores comemoravam.
No relato da Agência Brasil, o presidente disse que a campanha precisou enfrentar interferência estrangeira por meio das big techs. “É uma eleição em que a gente teve que vencer a intromissão vinda de fora para dentro através de plataformas digitais”, afirmou. Ele defendeu regular essas empresas no novo mandato: “Nós não podemos ter empresas monstruosas de grande, ganhando bilhões e bilhões”. E prometeu: “Eu posso garantir para vocês que nós vamos mudar o jeito de governar esse país”. Lula disse ainda que “a comunicação digital vai ganhar um espaço muito grande” no governo e que o novo período terá participação popular nas decisões. A Agência Senado registrou o agradecimento ao apoio “sobretudo das mulheres”.
Os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre, parabenizaram o presidente ainda no domingo. Ministros como Alexandre Padilha, Wellington Dias e Esther Dweck acompanharam o pronunciamento.
PL reconhece, Flávio muda de estratégia
Na segunda, Valdemar Costa Neto divulgou nota em nome do PL. “Reconhecemos o resultado presidencial, proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE)”, diz o texto, publicado pela Agência Brasil. A nota afirma que “os questionamentos levantados precisam ser devidamente esclarecidos” e chama de “eleitoreiras” as medidas de ampliação de gastos com benefícios sociais às vésperas da votação. Valdemar não parabenizou Lula. Republicanos, União Brasil e Podemos também reconheceram a vitória.
O próprio Flávio recuou no mesmo dia. Em vídeo nas redes, ele deixou de falar em anulação e anunciou que vai pedir a cassação da chapa Lula e Alckmin por suposto abuso de poder político e econômico. Aliados e advogados disseram ao Metrópoles que a chance de um pedido de anulação é “zero” e que a equipe jurídica sempre foi contra essa via.
Bolsa despenca e dólar dispara
O mercado tinha apostado na vitória de Flávio e reagiu mal. O Ibovespa fechou a segunda-feira em queda de 13,88%, aos 176.608 pontos, segundo a InfoMoney. A B3 acionou o circuit breaker às 9h57, depois de uma queda de 10%, e suspendeu os negócios por 30 minutos, algo que não acontecia desde março de 2020. O dólar comercial subiu 8,21% e fechou a R$ 5,40. Os juros futuros com vencimento em 2029 passaram de 15% ao ano, alta de mais de 2,6 pontos percentuais no dia.
Analistas ouvidos pela InfoMoney atribuem a queda ao risco fiscal e ao desmonte de posições montadas para uma vitória do senador. “Vai ser um dia difícil. O mercado vai reavaliar tudo”, disse Bruno Funchal, da Bradesco Asset. Para Thomas Haugaard, da Janus Henderson, “a atenção agora se desloca rapidamente da eleição para a equipe e o plano fiscal”. Fábio Murad, da Wiser Asset, ponderou que “a continuidade do governo não determina, sozinha, uma baixa permanente”.
Diplomação até 18 de dezembro e posse em 5 de janeiro
O próximo passo formal é a diplomação, feita pelo TSE no caso de presidente e vice. O prazo final no calendário eleitoral é 18 de dezembro de 2026. A posse não será mais em 1º de janeiro: a Emenda Constitucional 111, de 2021, mudou a data, e Lula e Alckmin assumem o novo mandato em 5 de janeiro de 2027, conforme o calendário detalhado pela Gazeta do Povo. Os governadores tomam posse em 6 de janeiro, e deputados federais e senadores, em 1º de fevereiro.
A disputa de domingo fecha uma campanha que chegou à reta final com as pesquisas apontando empate técnico e com brigas no TSE até a véspera, como no caso do canal Exército do Lula. Até o diploma ser entregue, a ação de cassação prometida por Flávio é o único caminho que a oposição anunciou para contestar o resultado na Justiça Eleitoral.


