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Listas de boicote a eleitores de Lula chegam à PGR e à PF

Parlamentares pedem investigação nacional sobre listas de comércios e profissionais apontados como petistas, enquanto o MPT recebe milhares de denúncias de assédio eleitoral após o segundo turno

Redação Políticaassinatura da editoria

29 de outubro de 2026 · 5 min de leitura

Fachada do Mercado Central de Belo Horizonte, exemplo de comércio de rua, em foto ilustrativa sem ligação a nenhuma lista citada na reportagem (Foto: Paulo SP/Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0)

Menos de quatro dias depois da reeleição de Lula, as listas de boicote a comerciantes e profissionais apontados como eleitores do presidente viraram caso para a Procuradoria-Geral da República, a Polícia Federal e o Ministério Público do Trabalho. Nesta semana, o líder do governo na Câmara, Paulo Pimenta (PT-RS), e outros parlamentares apresentaram uma notícia de fato aos três órgãos pedindo uma investigação de alcance nacional, segundo a CNN Brasil.

O documento reúne episódios de ao menos oito unidades da Federação e levanta uma suspeita: se listas tão parecidas surgiram quase ao mesmo tempo, pode haver coordenação por trás delas. Os próprios autores admitem que, até aqui, não há elemento que permita apontar um responsável.

O que as listas dizem e onde circulam

As listas são mensagens de WhatsApp e redes sociais com nomes de restaurantes, lojas, prestadores de serviço e trabalhadores que seriam eleitores de Lula. O pedido que acompanha cada uma é o mesmo: boicotar os estabelecimentos, demitir os funcionários e não contratar quem consta ali.

A CNN Brasil examinou uma lista do interior paulista com dezenas de estabelecimentos e profissionais. Em Tanabi, são cerca de 40 comerciantes, empresários e autônomos. Há registros parecidos em São José do Rio Preto, Mirassol e Votuporanga. As mensagens que circulam junto com o material pedem que os leitores incluam mais nomes e sugerem comprar em outras cidades para evitar negócios ligados a quem votou em Lula.

O fenômeno não ficou restrito a São Paulo. Reportagem da Folha Vitória registra listas em ao menos seis municípios capixabas, entre eles Colatina, Baixo Guandu, Cachoeiro de Itapemirim e Vitória, e relata o medo de comerciantes incluídos. O portal Espírito Santo Notícias afirma que as listas do estado incluem restaurantes, lojas, bancos, professores e até igrejas, e que parte do conteúdo reaproveita publicações de 2022.

Empresas grandes também aparecem. Segundo o site O Segredo, que reuniu a repercussão do caso, listas atribuídas a apoiadores de Flávio Bolsonaro citam o Itaú e a rede de postos Ipiranga, além de mercadinhos, docerias e padarias. Uma lista que circula em Petrópolis teria quase cem estabelecimentos. O Itaú, procurado pelo UOL, respondeu que sua posição é apolítica e apartidária, conforme a mesma publicação.

O que a Justiça já decidiu em casos parecidos

A cobrança por investigação tem um precedente concreto. Em Cafelândia, no interior de São Paulo, duas pessoas responsáveis por uma lista de boicote divulgada nas eleições de 2022 foram condenadas pelo Tribunal de Justiça paulista em 2025 pelo crime de perseguição. É a referência que os parlamentares usam para sustentar que listar pessoas por convicção política pode ser crime, e não só mau gosto de campanha.

A parte trabalhista tem regras mais claras. O advogado Danilo Helmeister disse à Agência Brasil que dispensar empregado por causa do voto é ilegal e que o empregador pode responder por crimes eleitorais e contra a organização do trabalho. O MPT trata ameaça de demissão, dispensa efetiva e discriminação na contratação por motivo eleitoral como assédio eleitoral.

A avalanche de denúncias no MPT

Os números do Ministério Público do Trabalho dão a dimensão do problema. O órgão recebeu mais de 1.140 relatos de assédio eleitoral nos três dias seguintes ao segundo turno, informou o procurador Maurício Coentro Paes de Mello em entrevista ao lado do Ministério do Trabalho e Emprego, em Brasília, na quarta-feira (28). Segundo o Poder360, o MPT contabilizava cerca de 3.080 relatos no ciclo eleitoral inteiro, o que significa que os registros pós-votação já passam de um terço do total.

Outras publicações trazem totais maiores, porque usam datas de corte diferentes. A Agência Brasil noticiou 1.937 denúncias de assédio eleitoral no trabalho, e o Distrito Federal sozinho já soma 115 registros, segundo o Jornal de Brasília. O MPT ressalva que são relatos recebidos, não casos comprovados um a um.

Macaé: o caso que já virou inquérito policial

O episódio mais avançado juridicamente é o de uma procuradora municipal de Macaé, no Norte Fluminense. Renata Pimentel Ribeiro escreveu nas redes que não criaria políticas públicas para petistas e aconselhou empresários a não contratar “artistas, pobres nordestinos e mineiros”, segundo a CNN Brasil. A reportagem registra ainda uma publicação de setembro em que ela defendia matar adversários de esquerda.

A Prefeitura de Macaé repudiou as declarações e disse que opiniões individuais não representam o município. O prefeito Welberth Rezende (Cidadania) também condenou os ataques. Sindicatos e a OAB-RJ registraram queixa na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), e a Polícia Civil do Rio abriu inquérito na quarta-feira (28) para apurar as postagens. A CNN diz ter tentado contato com a procuradora e não obteve resposta até a publicação.

O que vem a seguir

PGR, PF e MPT agora decidem se abrem apurações a partir da notícia de fato dos parlamentares. A primeira pergunta a responder é técnica: comparar textos, imagens e metadados das listas para ver se existe uma origem comum, quem foram os primeiros a postar e se administradores de grupos se repetem. O pedido inclui ainda saber se estruturas político-eleitorais participaram ou financiaram a divulgação.

Quem se encontrar numa lista tem o MPT como porta de entrada quando a ameaça envolve emprego, e a polícia civil quando há ofensa ou perseguição. Guardar prints com data, nome do grupo e número de quem enviou ajuda qualquer apuração. Se as listas forem iniciativas locais soltas ou parte de uma operação articulada, só as investigações vão dizer.

Fontes

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