Endividamento das famílias chega a 50,1% da renda, recorde do BC
Banco Central divulgou dois levantamentos em dois dias: 20,3 milhões de brasileiros estão em endividamento de risco e a inadimplência de setembro recuou só uma casa decimal
29 de outubro de 2026 · 5 min de leitura

O endividamento das famílias brasileiras chegou a 50,11% da renda anual em agosto, o maior valor da série histórica do Banco Central, iniciada em março de 2011. É a primeira vez que o indicador passa de 50%, segundo o g1. O número saiu nesta quinta-feira (29) no relatório de estatísticas monetárias e de crédito, junto com a taxa de inadimplência de setembro. Na véspera, outro documento do BC já havia mostrado que 20,3 milhões de pessoas vivem em situação de endividamento de risco.
O que os números de agosto e setembro dizem
Em agosto, a alta do indicador foi de 0,2 ponto percentual no mês e de 1,2 ponto em doze meses, de acordo com a CNN Brasil. O comprometimento de renda das famílias com o pagamento de dívidas subiu para 29%. Quando a série começou, em 2011, o endividamento era de 34,9% da renda.
A inadimplência, que mede operações com atraso superior a 90 dias, ficou em 4,98% na carteira total em setembro, contra 5,05% em agosto, o recorde da série revisada. Entre pessoas físicas, caiu de 6,04% para 5,99%. Nas empresas, recuou 0,1 ponto, para 3,3%. O g1 arredondou os números e escreveu que a taxa “permaneceu” em 5% e 6%. Na prática, houve uma queda pequena, mas o nível segue alto.
Parte dessa alta tem explicação contábil. O BC já disse, em relatório divulgado em setembro, que cerca de 40% do aumento recente da inadimplência vem da nova regra de provisões, a Resolução 4.966 do Conselho Monetário Nacional, segundo o Poder360. A mudança de critério explica parte do salto, mas não toda a piora.
20,3 milhões em endividamento de risco
O Relatório de Estabilidade Financeira, divulgado na terça-feira (27), foi mais duro. Em junho de 2026, 20,3 milhões de brasileiros estavam em endividamento de risco, 17% das pessoas com dívida no sistema financeiro e 75% a mais que cinco anos antes, conforme reportagem do g1.
O BC classifica alguém como “endividado de risco” quando a pessoa reúne pelo menos dois de quatro critérios. São eles: inadimplência superior a 90 dias, mais da metade da renda mensal comprometida com dívidas, renda restante abaixo da linha da pobreza depois de pagar os débitos e uso simultâneo de cheque especial, crédito pessoal sem consignação e rotativo do cartão.
Estar endividado, sozinho, não significa estar com conta atrasada. Financiar um imóvel ou parcelar uma compra gera dívida sem que a pessoa esteja em dificuldade.
A proporção de tomadores nessa situação era de 9,7% em junho de 2021, foi a 13,1% em 2022 e a 13,8% em 2023, recuou para 13,4% em 2024 e chegou a 17% em 2026. O relatório também mostra que o peso recai sobre quem ganha menos. Para quem recebe até dois salários mínimos, grupo de 61,2 milhões de tomadores, as dívidas comprometem 42% da renda mensal, e 15% da renda vai só para o cartão de crédito. Entre os 4,4 milhões que ganham mais de dez salários mínimos, o comprometimento é de 18,6%, concentrado em financiamento de imóvel e de veículo, com prazos mais longos.
O documento aponta ainda que esse público de menor renda recebe, em média, nove ofertas digitais de crédito por mês. E registra um problema no Crédito do Trabalhador, o consignado do setor privado: em junho, o saldo inadimplente da linha chegou a R$ 6,1 bilhões, em parte por demissões.
O que o governo e o BC estão fazendo
O dado chega no meio de uma corrida de medidas. Em maio, o governo lançou o Novo Desenrola Brasil e, na semana passada, anunciou uma nova rodada, com meta de renegociar R$ 150 bilhões em dívidas, de acordo com o g1. O plano prevê que a União compre carteiras de crédito dos bancos com deságio de 90%, a um custo estimado de R$ 15 bilhões. Serão contempladas dívidas de cartão de crédito (parcelado e rotativo) e de crédito pessoal sem consignado, com atraso de 2 a 4,5 anos e valor de até R$ 10 mil, segundo o ministro do Planejamento, Bruno Moretti. As reportagens consultadas não informam quando o programa começa a funcionar nem como o consumidor poderá aderir.
O Banco Central, por sua vez, definiu na segunda-feira (26) novas regras para a oferta de empréstimo dentro do Pix. Segundo o g1, os bancos só poderão oferecer crédito no momento da transação com consentimento prévio e específico do cliente, e a primeira oferta só vale 24 horas depois da habilitação. A norma passa a valer em 1º de julho de 2027. Para clientes em maior vulnerabilidade, a oferta só poderá servir para melhorar a situação financeira, como renegociação, portabilidade ou troca por produto mais vantajoso, sem dinheiro novo.
Outra resolução obriga as instituições a oferecer um mecanismo claro de bloqueio de propagandas e ofertas ativas de crédito, em vigor a partir de 31 de março de 2027. Os bancos também terão de mostrar um painel de dívidas consolidadas, com simulação de custo e alertas de risco antes de cada nova contratação.
O que fazer enquanto as regras não chegam
As medidas do BC têm prazo longo, e o Desenrola ainda não tem data de adesão nas reportagens consultadas. Quem está com dívida em atraso pode, desde já, conferir quanto da renda mensal vai para parcelas, priorizar o cartão rotativo e o crédito pessoal sem consignação, que têm os juros mais altos, e pedir renegociação direta ao banco. Desconfie de qualquer oferta que cobre taxa adiantada para “liberar” renegociação, golpe comum em época de programa de dívidas.
O próximo relatório mensal de crédito do BC vai mostrar se a queda leve da inadimplência em setembro se mantém.


