Ladrões roubam obras de Renoir avaliadas em R$ 53 milhões na França
Dois assaltantes invadiram o museu dedicado ao pintor impressionista em Cagnes-sur-Mer, no sul da França, e fugiram com três pinturas; uma quarta obra foi deixada para trás durante a perseguição policial
Marina Kesslerassinatura editorial do CityTudo8 de setembro de 2026 · 5 min de leitura

Dois ladrões invadiram nesta terça-feira (8/9) o museu dedicado ao pintor impressionista francês Pierre-Auguste Renoir (1841-1919) em Cagnes-sur-Mer, no sul da França, e fugiram com três pinturas do artista avaliadas em 9 milhões de euros, o equivalente a cerca de R$ 53 milhões, segundo o prefeito da cidade, Bryan Masson, em declaração à agência de notícias AFP. Durante a fuga, perseguidos pela polícia, os assaltantes deixaram cair uma quarta obra, que acabou recuperada no local.
Como foi a invasão
O alarme do museu disparou às 5h48 no horário local, 0h48 pelo horário de Brasília, e a polícia municipal chegou ao local cinco minutos depois. Os agentes chegaram a tempo de perseguir a dupla, que fugiu sem ser detida. “Identificados pelas câmeras de segurança da cidade, os dois indivíduos fugiram, abandonando uma das pinturas roubadas”, afirmou o prefeito em nota divulgada pela prefeitura e reproduzida pela imprensa francesa.
Masson afirmou ainda que a investigação segue em andamento e que os dois suspeitos continuam foragidos. “Desde esta manhã, tanto a polícia municipal quanto a nacional foram mobilizadas para o local. Os autores estão sendo procurados ativamente, e a investigação está em andamento”, disse o prefeito. Até a publicação desta matéria, nenhuma prisão havia sido confirmada pelas autoridades francesas.
Quais obras foram levadas
O prefeito de Cagnes-sur-Mer não identificou publicamente quais pinturas foram roubadas, mas o jornal regional francês Nice-Matin, citado pelo G1, apurou que as obras em jogo são “Retrato de Madame Pichon” (1895), “Retrato de Madame Colonna Romano” (1910), “Coco Lisant” (1905) e “Jeune Fille au Puits” (1886), todas de Renoir. Ainda não está claro qual das quatro pinturas os ladrões deixaram para trás durante a fuga, informação que as autoridades francesas não divulgaram até o momento.
As telas retratam pessoas próximas ao círculo pessoal do pintor: “Coco Lisant” traz um dos filhos de Renoir, Claude, apelidado de “Coco”, lendo um livro, enquanto os retratos de Madame Pichon e Madame Colonna Romano fazem parte da fase em que o artista se dedicava a encomendas de retratos de mulheres da alta sociedade francesa do início do século 20.
A casa que virou museu
O museu foi criado em 1960 na antiga mansão de Renoir, erguida no alto de uma colina em Cagnes-sur-Mer, perto de Nice, cidade onde o pintor viveu os últimos anos de vida e morreu em 1919. A propriedade, conhecida como Domaine des Collettes, preserva o ateliê onde o artista trabalhava mesmo já debilitado pela artrite reumatoide que o acometeu nos últimos anos, quando passou a pintar com o pincel amarrado à mão.
Segundo a agência de notícias Reuters, o acervo permanente do museu reúne 13 pinturas do próprio Renoir, além de cerca de 40 esculturas, peças de mobiliário e fotografias da época em que a família viveu na casa. É um acervo pequeno se comparado a museus como o Musée d’Orsay, em Paris, mas de valor simbólico alto, por reunir peças que nunca deixaram o espaço onde foram pintadas.
O valor de 9 milhões de euros atribuído pelo prefeito às três telas roubadas está longe de ser um exagero para obras de Renoir: a pintura mais cara do artista já vendida em leilão, “Bal du Moulin de la Galette” (1876), foi arrematada por US$ 78,1 milhões na Sotheby’s de Nova York em 1990, um recorde para o pintor que segue de pé até hoje. Obras menores do artista, como retratos de família semelhantes aos roubados em Cagnes-sur-Mer, costumam movimentar entre 1 milhão e 2 milhões de euros quando aparecem em leilões, o que reforça por que peças com a procedência das do Museu Renoir dificilmente conseguem ser vendidas abertamente sem levantar suspeita.
Não é o primeiro assalto a museu na França em pouco tempo
O roubo em Cagnes-sur-Mer reacende a discussão sobre a segurança de museus franceses menos de um ano depois de um dos assaltos mais espetaculares da história recente do país. Em 19 de outubro de 2025, ladrões invadiram a Galeria Apollo do Louvre, em Paris, o museu mais visitado do mundo, e em cerca de sete minutos fugiram com oito peças das joias da coroa francesa avaliadas em aproximadamente 88 milhões de euros. Os assaltantes usaram um caminhão com plataforma elevatória para acessar uma janela do museu e escaparam em scooters.
Naquele caso, dois suspeitos foram presos ainda em outubro e admitiram envolvimento no furto após serem interrogados por 96 horas sob custódia. Em novembro, outros quatro suspeitos foram detidos, mas até hoje as joias roubadas do Louvre não foram recuperadas, e a investigação segue mobilizando mais de cem policiais franceses.
Museus europeus sob alerta
A agência policial europeia Europol afirmou no mês passado que os roubos de obras de arte na Europa estão ficando mais violentos, com quadrilhas cada vez mais dispostas a agir em plena luz do dia e a usar ferramentas pesadas para forçar entradas. O alerta da Europol, somado ao roubo do Louvre no ano passado e agora ao assalto ao Museu Renoir, reforça a pressão sobre instituições culturais francesas para reforçar sistemas de vigilância, especialmente em museus menores e mais afastados dos grandes centros, como é o caso do museu-ateliê de Cagnes-sur-Mer.
Peças de museu com a notoriedade das pinturas de Renoir são particularmente difíceis de revender no mercado legal de arte, já que qualquer tentativa de leilão ou venda tende a ser rapidamente identificada por casas de leilão e colecionadores. Por isso, especialistas em crimes contra o patrimônio artístico costumam apontar que obras assim roubadas acabam parando em coleções particulares ilegais, usadas como garantia em negociações do crime organizado, ou recuperadas anos depois em operações policiais, como ocorreu em casos anteriores envolvendo obras de mestres impressionistas na Europa.
O que vem a seguir
A prefeitura de Cagnes-sur-Mer não deu prazo para a conclusão da investigação, e o museu permanece fechado ao público enquanto a perícia analisa a cena do crime. A expectativa das autoridades francesas é repetir o desfecho do caso do Louvre, com a identificação dos suspeitos a partir das imagens das câmeras de segurança da cidade, citadas pelo próprio prefeito como o primeiro indício já obtido pela polícia. Ainda assim, a recuperação das telas roubadas depende de os ladrões serem localizados antes de tentarem repassar as obras a compradores dispostos a lidar com peças de procedência duvidosa, o que costuma ser o principal obstáculo em casos como este.


