Gloria Steinem, ícone do feminismo americano, morre aos 92 anos
Jornalista e ativista, cofundadora da revista Ms. e uma das vozes mais influentes do feminismo desde os anos 1960, morreu em casa em Nova York; causa da morte não foi divulgada
Marina Kesslerdo CityTudo3 de setembro de 2026 · 6 min de leitura
A jornalista e ativista norte-americana Gloria Steinem, um dos maiores nomes do movimento feminista nos Estados Unidos, morreu aos 92 anos em Nova York. A morte foi anunciada nesta quinta-feira (3) pela fundação que leva o nome dela, que informou que Steinem faleceu em casa na quarta-feira (2), cercada por pessoas próximas. A causa da morte não foi divulgada. Por mais de cinco décadas, ela lutou pelos direitos reprodutivos das mulheres e por mais participação feminina na política, além de ter fundado publicações e organizações que ajudaram a moldar o feminismo moderno nos Estados Unidos.
“Ontem, Gloria Steinem faleceu pacificamente em sua casa na cidade de Nova York, cercada por algumas das muitas pessoas que a amavam. O quase um século de vida de Gloria foi bem vivido, e ela continuou trabalhando pela igualdade até o fim”, informou a fundação Gloria Steinem em comunicado, segundo o G1.
Da reportagem disfarçada de coelhinha da Playboy à fundação da revista Ms.
Steinem emergiu como uma das vozes mais fortes do feminismo na chamada segunda onda do movimento, no fim da década de 1960. Ela revelou anos depois que ingressou no ativismo depois de ter reportagens sobre feminismo recusadas nas publicações onde trabalhava no início da carreira jornalística. Segundo ela, teria se limitado a escrever sobre o tema se os editores da época estivessem dispostos a publicar esse tipo de pauta. “Mas eles não estavam interessados. Então, acabei saindo para falar em público, o que era o meu pesadelo”, afirmou Steinem em entrevista à agência Associated Press em 2015.
Mesmo assim, ela construiu uma carreira de peso no jornalismo antes de se tornar símbolo do ativismo. Um dos trabalhos mais lembrados é uma reportagem de 1963 sobre as condições degradantes enfrentadas pelas funcionárias do império da revista “Playboy”, de Hugh Hefner: para apurar a matéria, Steinem se disfarçou de “coelhinha” e trabalhou no clube por 11 dias. Em 1968, ela ajudou a fundar a “New York Magazine” e nela publicou o artigo “Depois do ‘Black Power’, a Libertação das Mulheres”, texto que a consolidou como uma liderança feminista em um período de intensas transformações sociais nos Estados Unidos. Pouco depois, estampou a capa da revista “Newsweek”, que a apresentou ao país como “A Nova Mulher”.
Em 1971, ela ajudou a fundar a “Ms. Magazine”, publicação escrita por mulheres e dedicada à cobertura de pautas ligadas ao feminismo que existe até hoje. A CNN Brasil descreve Steinem como cofundadora e editora consultora da revista, papel que ela manteve mesmo décadas depois de deixar de ser a rosto mais visível da publicação.
Décadas de ativismo por direitos das mulheres
No campo político, Steinem encabeçou diversas manifestações que pressionaram o Congresso norte-americano a ampliar direitos para as mulheres. Em 1971, ela fundou o Caucus Político Nacional para Mulheres ao lado das ex-deputadas Bella Abzug e Shirley Chisholm e da escritora Betty Friedan, autora de “A Mística Feminina”, livro de 1963 considerado um dos marcos que inauguraram a segunda onda do feminismo nos Estados Unidos. Ao longo da carreira, ela também esteve por trás da criação de outras organizações, como a Coalizão de Mulheres Sindicalistas, o Centro de Mídia de Mulheres, a Eleitores pela Escolha e a Fundação Ms. para as Mulheres.
Segundo a própria Steinem contou mais tarde, o grande ponto de virada que a levou a mergulhar de vez no ativismo feminista foi a luta pelo direito ao aborto nos Estados Unidos, tema pelo qual ela já tinha ligação pessoal: aos 22 anos, havia passado por um aborto clandestino. “Ou o controle sobre nossos próprios corpos é igualitário, independentemente de sexo ou raça, ou não estamos vivendo em uma democracia”, chegou a declarar a ativista, de acordo com o G1.
Grande parte da vida pública de Steinem foi dedicada a viajar pelos Estados Unidos discursando em campi universitários, centros comunitários, comícios e marchas. Já na casa dos 80 anos, ela seguia viajando pelo mundo para se manifestar sobre temas como mutilação genital feminina e reconciliação entre Coreia do Norte e Coreia do Sul, mas a igualdade de gênero permanecia sua principal bandeira. “Ser feminista significa ver o mundo como um todo, em vez de apenas a metade. Isso não deveria precisar de um nome e, um dia, não precisará”, disse ela em uma das entrevistas citadas pelo G1.
Vida pessoal e reconhecimento tardio
Steinem nasceu em 25 de março de 1934, em Toledo, no estado americano de Ohio, a mais nova de duas filhas de um negociante de antiguidades itinerante. Como a família se mudava com frequência, ela só passou a frequentar a escola com regularidade por volta do sétimo ano. Ao longo da vida adulta, decidiu não ter filhos e só se casou uma vez, aos 66 anos, com o empresário e ambientalista sul-africano David Bale, pai do ator Christian Bale; David morreu em 2003, após pouco mais de três anos de casamento com Steinem.
O reconhecimento institucional veio de forma mais tardia na carreira: em 2013, o então presidente Barack Obama concedeu a Steinem a Medalha Presidencial da Liberdade, a mais alta honraria civil concedida pelo governo dos Estados Unidos. Ela também colecionou homenagens do mundo das artes ao longo da última década de vida: aos 83 anos, sentou-se pela primeira vez na primeira fila de um desfile de moda, como convidada do estilista Prabal Gurung, e, poucos dias após completar 85 anos, conduziu uma roda de conversa com mulheres da plateia durante uma peça off-Broadway que celebrava sua trajetória.
O cinema, os livros e os últimos projetos
A vida de Steinem também virou tema de cinema: em 2020, estreou o longa “As Vidas de Glória” (“The Glorias: A Life on the Road”), estrelado por Julianne Moore e baseado na autobiografia dela de 2015, “Minha Vida na Estrada”. A diretora do filme, Julie Taymor, definiu a trajetória da ativista como singular em entrevista de 2017 ao jornal “The New York Times”: “De porta-voz relutante a um farol de mudança positiva, é uma líder americana capaz de falar com todos nós”, disse a cineasta, segundo trecho reproduzido pelo G1 e pela CNN Brasil.
Já aos 91 anos, Steinem seguia produzindo: ela colaborou com a ativista pela paz liberiana e ganhadora do Prêmio Nobel Leymah Gbowee em um livro ilustrado voltado a inspirar jovens a se engajar em causas sociais, “Rise, Girl, Rise: Our Sister-Friend Journey. Together for All”, publicado em fevereiro deste ano. O lançamento reforça como a ativista manteve ritmo de trabalho até praticamente o fim da vida, décadas depois de ter se tornado uma das figuras mais associadas ao avanço dos direitos das mulheres nos Estados Unidos e no mundo.
Repercussão e legado
A morte de Steinem repercutiu rapidamente entre veículos internacionais, que a descreveram como uma das personalidades mais influentes da segunda metade do século 20 no debate sobre igualdade de gênero. Colegas de ativismo e artistas que trabalharam ao lado dela ou se inspiraram em sua trajetória devem prestar homenagens públicas nos próximos dias, dado o papel central que Steinem ocupou tanto no jornalismo quanto na organização política do movimento feminista americano.
Seu legado é frequentemente comparado ao de outras lideranças da segunda onda do feminismo, como Betty Friedan e Bella Abzug, com quem ela dividiu palcos de luta política nos anos 1970. Diferente de boa parte de suas contemporâneas, porém, Steinem manteve visibilidade pública praticamente ininterrupta por mais de 50 anos, atravessando gerações de ativistas e influenciando desde a luta histórica pelo direito ao voto e ao aborto até debates mais recentes sobre representação de mulheres na política e nas artes. A revista Ms., que ajudou a fundar em 1971, segue em circulação até hoje, assim como boa parte das organizações que ela ajudou a criar ao longo da carreira.


