Drone russo atinge Serviço de Segurança da Ucrânia pela 1ª vez
Ataque em Kiev feriu sete pessoas e mirou o gabinete do chefe interino da SBU nesta sexta-feira (4); episódio acontece às vésperas da visita dos enviados de paz de Trump a Moscou e Kiev
Marina Kesslerassinatura editorial do CityTudo4 de setembro de 2026 · 5 min de leitura

Um drone russo atingiu nesta sexta-feira (4) a sede do Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) no centro de Kiev, ferindo sete pessoas, no que autoridades ucranianas descrevem como a primeira vez que o prédio é alvo direto de um ataque desde o início da invasão russa, há quatro anos e meio. O ataque ocorreu em pleno dia, depois de uma sequência de bombardeios aéreos russos contra a capital ucraniana que já dura mais de uma semana.
O que aconteceu no ataque desta sexta-feira
Segundo o relato das autoridades locais, o drone atingiu o prédio da SBU durante o dia, equipes de emergência foram mobilizadas para o local e sete pessoas ficaram feridas no ataque. O presidente Volodymyr Zelensky afirmou que o alvo direto do ataque foi o gabinete do chefe interino da SBU, Oleksandr Poklad, nomeado para o cargo em julho. Poklad não ficou ferido. Até a publicação desta reportagem, o governo russo não havia comentado publicamente o episódio nem confirmado a autoria do ataque, embora a artilharia ucraniana atribua a ele a autoria de praticamente todos os ataques de drone contra a capital nas últimas semanas.
Quem é Oleksandr Poklad, o chefe que era o alvo
Poklad assumiu a chefia interina da SBU em julho deste ano, em meio a um período de reorganização interna do órgão. A escolha do seu gabinete como alvo chama atenção porque, ao longo dos quatro anos e meio de guerra, o prédio-sede do SBU nunca havia sido diretamente atingido, mesmo com Kiev sob bombardeio quase constante desde o fim de agosto. Isso reforça, na leitura de analistas ucranianos, a hipótese de que o ataque não foi aleatório, mas teve como propósito atingir especificamente a cúpula do serviço de inteligência interna do país.
O que é o SBU e por que o prédio nunca tinha sido atingido
O Serviço de Segurança da Ucrânia é o herdeiro direto da divisão da KGB soviética que operava no território ucraniano antes da independência, em 1991. Hoje, o órgão responde pela segurança interna do país, investiga crimes de guerra, combate ataques cibernéticos, conduz operações de contrainteligência e comanda as unidades de forças especiais “Alpha”, responsáveis por ataques com drones contra alvos militares russos, entre eles a chamada “Operação Teia de Aranha”. Em tempos de guerra, o efetivo autorizado do SBU chega a 41 mil funcionários, ante 31 mil antes do conflito. A instituição também mantém uma rivalidade histórica com a Diretoria Principal de Inteligência da Ucrânia (HUR), rivalidade que, segundo o mesmo levantamento, resultou em um confronto a tiros entre agentes das duas agências ainda nesta semana, antes mesmo do ataque russo ao prédio.
Ataques aéreos continuam a castigar Kiev
O ataque ao SBU não é um episódio isolado, mas parte de uma escalada que vem sendo registrada desde o fim de agosto. Kiev enfrenta bombardeios aéreos quase ininterruptos desde 27 de agosto, com drones russos descritos como “praticamente impossíveis de interceptar”, e a região metropolitana da capital já soma pelo menos 53 mortos nesse período. Em resposta, a Ucrânia intensificou ataques de longo alcance contra refinarias e instalações de armazenamento de petróleo em território russo, na tentativa de pressionar a economia de guerra do Kremlin.
Witkoff e Kushner: os enviados de Trump nas negociações de paz
O ataque à sede do SBU acontece a poucos dias de uma nova rodada de diplomacia liderada pelos Estados Unidos. Segundo a agência estatal russa Tass, os enviados especiais do presidente Donald Trump, Steve Witkoff e Jared Kushner, viajam neste fim de semana primeiro a Moscou e depois a Kiev, com visita à capital ucraniana marcada para domingo (6), numa tentativa de destravar uma solução diplomática para o conflito. Zelensky confirmou a visita e ofereceu uma concessão simbólica: o presidente ucraniano disse que o país vai garantir a segurança do espaço aéreo russo durante a passagem dos enviados americanos por Moscou, e pediu que a Rússia suspenda os ataques aéreos contra a Ucrânia enquanto durar a missão diplomática.
O que Trump disse sobre a proposta de paz
Horas antes de o drone atingir o prédio do SBU, Trump já vinha sinalizando otimismo com a missão de seus enviados. Em declarações públicas, o presidente americano afirmou “temos uma ideia para a paz” e disse acreditar que “há uma boa chance de conseguirmos” um acordo entre Rússia e Ucrânia, sem detalhar publicamente o conteúdo da proposta. Trump também atribuiu parte da dificuldade do processo à relação pessoal entre os dois presidentes envolvidos no conflito: disse que já “resolveu oito guerras” e que, no caso ucraniano, o entrave central é que “você tem o presidente Zelensky e o presidente Putin, eles se odeiam de verdade”, classificando Witkoff e Kushner como “dois grandes negociadores” que vêm fazendo um trabalho de destaque na tentativa de aproximar as partes.
As exigências de Putin e a resposta ucraniana
O que está em jogo na rodada de negociações vai muito além de um cessar-fogo pontual. O presidente russo, Vladimir Putin, mantém como condições para um acordo a cessão de território ucraniano, a renúncia da Ucrânia à adesão à Otan e uma redução significativa das Forças Armadas do país, exigências que o governo de Kiev já rejeitou publicamente. Enquanto a diplomacia tenta avançar, os dois lados seguem escalando a guerra no terreno: a Rússia intensifica os ataques aéreos sobre Kiev e outras cidades ucranianas, e a Ucrânia responde mirando a infraestrutura de energia russa, um padrão que já se repete há meses e que analistas apontam como pano de fundo direto do ataque desta sexta-feira contra o SBU.
O que vem a seguir
Com Witkoff e Kushner esperados em Moscou neste fim de semana e depois em Kiev no domingo, a expectativa em capitais ocidentais é que a rodada de conversas indique se existe, de fato, espaço para um avanço diplomático ou se o processo repetirá o padrão de tentativas anteriores lideradas pelos mesmos enviados, que até agora produziram resultados limitados e, segundo analistas ouvidos pela imprensa internacional, acabaram ofuscadas por negociações paralelas envolvendo o Irã. O ataque ao prédio do SBU, o primeiro do tipo em quatro anos e meio de guerra, deve pesar sobre o clima da missão: tanto pela mensagem simbólica de atingir o coração do aparato de segurança ucraniano às vésperas da visita americana, quanto pelo risco de novos episódios semelhantes minarem a promessa de trégua aérea que Zelensky ofereceu à Rússia justamente para viabilizar a passagem dos negociadores dos Estados Unidos pelo território dos dois países em conflito.


