Enviados de Trump chegam a Kiev após reunião de 3h com Putin
Steve Witkoff e Jared Kushner foram de Moscou direto à capital ucraniana em um fim de semana de negociações; Rússia e Ucrânia suspenderam ataques às duas capitais durante a visita
Marina Kesslerassinatura editorial do CityTudo6 de setembro de 2026 · 7 min de leitura

Os enviados dos Estados Unidos Steve Witkoff e Jared Kushner, genro do presidente Donald Trump, chegaram a Kiev na madrugada deste domingo (6) depois de concluírem uma rodada intensa de negociações com o presidente russo Vladimir Putin em Moscou, num momento em que Washington renova os esforços para encerrar a guerra na Ucrânia. É a primeira vez que a dupla visita a capital ucraniana desde o início do conflito, e a chegada ocorre em meio a ataques quase constantes de mísseis e drones russos contra a cidade.
O que foi discutido no Kremlin
O encontro entre os enviados americanos e Putin aconteceu na tarde de sábado (5) e durou cerca de três horas, seguido de um jantar com o líder russo. Segundo o assessor do Kremlin Yuri Ushakov, Putin disse a Kushner e Witkoff que a Rússia “vai alcançar seus objetivos” na guerra e que as causas mais profundas do conflito ainda precisam ser resolvidas.
Ushakov classificou a conversa como “útil e construtiva” e afirmou que ela não se limitou ao tema da guerra: questões econômicas e possíveis projetos conjuntos entre russos e americanos também foram discutidos “em considerável detalhe”. “De modo geral, as negociações foram oportunas e altamente produtivas para ambos os lados”, disse o assessor, acrescentando que Putin e Trump vão manter contato pessoal e que o trabalho de Witkoff e Kushner deve continuar. Os enviados americanos prometeram levar as observações do líder russo a Volodymyr Zelensky, com quem se reuniriam já no domingo.
A chegada a Kiev e a visita a uma catedral bombardeada
Witkoff e Kushner fizeram uma escala na cidade polonesa de Rzeszów antes de seguir para a capital ucraniana, provavelmente de trem, segundo a agência russa TASS. Ao chegar a Kiev, o enviado americano visitou a Catedral de Santa Sofia, no centro da cidade, que teve janelas e esquadrias danificadas num ataque russo à sede do Serviço de Segurança da Ucrânia na sexta-feira (4). O templo está inscrito na Lista do Patrimônio Mundial da Unesco.
As conversas entre americanos e ucranianos se estenderam por duas rodadas na noite de domingo, seguidas por uma terceira com a presença de representantes europeus. Kyrylo Budanov, chefe do Gabinete da Presidência ucraniana, disse que França, Reino Unido e Alemanha também tinham representantes na capital para acompanhar as tratativas.
O clima da chegada teve até um detalhe curioso: Zelensky mandou preparar camisetas com o slogan “regime de Kiev” como presentes para os participantes das negociações, segundo Serhiy Nykyforov, secretário de imprensa do presidente ucraniano. A referência é uma resposta bem-humorada a comentários anteriores de autoridades russas, que costumam se referir ao governo ucraniano como um “regime” para questionar sua legitimidade.
Durante uma coletiva de imprensa após a primeira rodada de negociações, Zelensky resumiu o objetivo das conversas: “queremos evitar a perda de vidas, queremos que esta guerra termine de forma justa para todos nós e queremos que ela termine de tal maneira que a agressão da Rússia contra a Ucrânia nunca mais se repita”. Ele completou dizendo acreditar que “cada reunião como esta” aproxima as partes desse objetivo. Antes da chegada dos enviados, o presidente ucraniano já havia alertado que a escassez crítica de interceptadores de defesa aérea deixa o país mais vulnerável a mísseis balísticos russos, e afirmou que as propostas de Kiev para um acordo “estão prontas”.
A trégua que só vale para as duas capitais
Para viabilizar a rodada de diplomacia, Rússia e Ucrânia combinaram uma trégua temporária de 72 horas que suspende os ataques aéreos especificamente contra Kiev e Moscou, começando na virada de sexta para sábado e cobrindo todo o fim de semana de negociações. A pausa, porém, não se estende ao restante do território ucraniano: nos ataques da madrugada de domingo, a Rússia evitou a capital, mas manteve bombardeios em outras regiões do país.
Segundo a Força Aérea da Ucrânia, as forças russas lançaram 108 drones do tipo Shahed a partir de território russo, atingindo pelo menos 11 localidades ucranianas. Um grande incêndio provocado por um desses ataques foi registrado numa instalação de infraestrutura na região de Kiev, e ao menos três pessoas morreram nesse episódio específico. No balanço mais amplo das últimas 24 horas, dez civis ucranianos morreram e outros 65 ficaram feridos em ataques russos, mesmo com a trégua pontual em vigor nas duas capitais.
Putin fala em guerra “chegando ao fim”, mas sem prazo para encontrar Zelensky
Também neste fim de semana, Putin disse acreditar que a guerra na Ucrânia está “chegando ao fim”, mas deixou claro que só vai se encontrar pessoalmente com Zelensky quando um acordo de paz duradouro estiver fechado. Questionado sobre a possibilidade de dialogar diretamente com líderes europeus, o presidente russo citou o ex-chanceler alemão Gerhard Schroeder como a figura de sua preferência para esse papel, numa sinalização de que prefere manter os europeus fora da mesa principal de negociação. Putin também agradeceu aos Estados Unidos por facilitar as conversas com Kiev, mas fez questão de dizer que o desfecho da guerra “interessa à Rússia e à Ucrânia”, num recado indireto à própria Casa Branca sobre os limites do papel americano na costura final do acordo.
O que vem a seguir
Um funcionário da Casa Branca disse à CNN que os dois lados “discutiram planos concretos para os próximos passos, que serão anunciados nas próximas semanas”, sem detalhar prazos ou pontos específicos do texto em negociação. Enviados de Trump como Witkoff e Kushner devem seguir como o principal canal direto entre Moscou e Kiev, papel que os dois já vinham exercendo havia meses em rodadas anteriores de conversas, mas que ganhou peso agora com a primeira visita da dupla à capital ucraniana.
Para a Ucrânia, o desafio segue sendo equilibrar a disposição de negociar com a necessidade de reforçar sua defesa aérea, alvo constante de críticas do próprio Zelensky à falta de interceptadores. Já para a Rússia, a insistência de Putin em só encontrar Zelensky depois de um acordo fechado sugere que o processo ainda deve passar por mais rodadas de negociação técnica antes de qualquer cúpula de alto nível entre os dois presidentes. Enquanto isso, a trégua de 72 horas nas capitais expira ao fim deste fim de semana, sem garantia de que os ataques recuem também no restante do território ucraniano.
Por que esta rodada é diferente das anteriores
Para o analista Lourival Sant’Anna, comentarista da CNN Prime Time, o que diferencia esta tentativa das rodadas anteriores é justamente o fato de os enviados de Trump irem falar diretamente com Zelensky, e não apenas repassar mensagens à distância. Segundo ele, isso reflete o reconhecimento, por parte de Trump, de que a Ucrânia deixou de ser vista como a parte que deveria ceder por estar em posição de fraqueza. O analista descreveu o cenário militar como praticamente congelado ao longo de uma linha de frente de mil quilômetros, “em que nenhum dos lados consegue avançar, nem a Ucrânia recuperar o seu território e nem a Rússia tomar mais território”, ainda que a guerra aérea venha favorecendo os ucranianos, que têm causado danos consideráveis à infraestrutura energética, militar e logística russa.
Sant’Anna também revelou que, em 25 de agosto, o diretor da CIA, John Ratcliffe, esteve em Moscou para transmitir às lideranças de inteligência russas a mensagem de que seria mais vantajoso para o país negociar, já que sua posição militar não era favorável. Dias depois, Putin sinalizou interesse em negociar, mas sem abrir mão das condições que mantém desde 2024: a entrega das quatro regiões ucranianas parcialmente ocupadas pela Rússia e a desistência de Kiev em ingressar na Otan, exigências que o analista considera um ponto de partida inaceitável para os ucranianos. Uma alternativa discutida seria um cessar-fogo que congele o conflito nas linhas atuais, deixando o status final dos territórios ocupados para negociações futuras, cenário que Kiev toparia mas que ainda depende do aval de Putin.


