CityTudo

Publicidade

PF diz que Moraes era 'informante de luxo' de Vorcaro

Relatório da Polícia Federal com sigilo retirado por André Mendonça aponta que o ministro do STF Alexandre de Moraes atuou como fonte privilegiada do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, apontando 187 interações entre os dois; gabinete de Moraes nega

Marina KesslerMarina Kesslerassinatura editorial do CityTudo

6 de setembro de 2026 · 5 min de leitura

Fachada do prédio-sede do Supremo Tribunal Federal em Brasília, com colunas curvas de concreto branco, fachada de vidro e as bandeiras do Brasil e do STF hasteadas, sob céu azul de dia claro

Um relatório da Polícia Federal com o sigilo retirado no início de setembro aponta que o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes atuou como uma espécie de “informante de luxo” do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master e alvo da Operação Compliance Zero. Segundo o documento, a PF identificou um suposto esquema de vazamento de informações sigilosas e avisos antecipados sobre buscas, quebras de sigilo e outras medidas judiciais, o que teria permitido a Vorcaro esconder documentos e movimentar ativos antes de operações da polícia. O gabinete de Moraes nega categoricamente qualquer participação nesse esquema.

O que o relatório da PF aponta

De acordo com o levantamento da corporação, a Polícia Federal identificou 187 interações entre Daniel Vorcaro e um contato salvo em seu celular como “Alexandre de Moraes”. Entre essas trocas, o episódio mais citado pelos investigadores ocorreu em 17 de novembro de 2025, quando Vorcaro enviou cinco mensagens de visualização única para esse número, que teria respondido ao empresário com quatro imagens também configuradas para desaparecer após a leitura, um recurso comumente usado para dificultar o rastreamento posterior do conteúdo trocado.

Como o sigilo foi derrubado

O material só veio a público depois que o ministro André Mendonça, relator do caso no STF, retirou o sigilo do relatório da Polícia Federal em 1º de setembro, decisão que ele tomou junto com o encaminhamento do material à Procuradoria-Geral da República para análise. Como o CityTudo já mostrou, a decisão de Mendonça foi o estopim de uma crise institucional que colocou os dois ministros em rota de colisão pública, levando o presidente do STF, Edson Fachin, a abrir um prazo de cinco dias para que Moraes, Mendonça, o procurador-geral Paulo Gonet e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, se manifestassem por escrito sobre o episódio.

A negativa de Moraes

O gabinete de Alexandre de Moraes rejeita integralmente as conclusões do relatório. Segundo nota oficial divulgada pela assessoria do ministro, as mensagens atribuídas a ele nunca foram de fato direcionadas ao magistrado, e Moraes jamais teve acesso a informações privilegiadas ou interferiu em operações da Polícia Federal. A defesa do ministro argumenta que a atribuição do contato salvo como “Alexandre de Moraes” no celular de Vorcaro não comprova, por si só, que o próprio ministro estivesse do outro lado da conversa, e que peritos independentes ainda precisam confirmar a autenticidade e a titularidade da linha usada nas trocas.

Fachin centraliza os processos sobre o futuro dos dois ministros

Diante da escalada do caso, o presidente do STF decidiu assumir diretamente a condução das apurações que miram Moraes e Mendonça, centralizando a supervisão processual dos dois casos num procedimento próprio da Presidência da Corte e retirando do inquérito das fake news as acusações que Moraes havia feito contra Mendonça, transferindo-as para esse novo procedimento centralizado. Fachin classificou a resposta da Corte como “firme, proporcional e rigorosa”, afirmando publicamente que não pretende agir com “precipitação, mas também sem omissão” e reforçando que nenhuma autoridade está acima da Constituição ou dispensada do devido processo legal.

Delegados da PF pedem que Gonet se declare impedido

O caso ganhou mais uma camada de complexidade nesta semana quando a Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) pediu que o procurador-geral da República, Paulo Gonet, se declare impedido de atuar nos desdobramentos da Operação Compliance Zero, argumentando que Gonet também aparece citado no próprio relatório da PF gerado pela operação, o que configuraria conflito de interesse. Segundo a associação, “as regras de impedimento e suspeição previstas para magistrados também se aplicam aos membros do Ministério Público”, e o efeito do atual procedimento de controle externo conduzido pela PGR seria “intimidatório” para os investigadores que apenas cumpriram ordens judiciais sem margem de discricionariedade. A ADPF pediu ainda o arquivamento do procedimento de controle externo aberto pela PGR e que todos os fatos revelados pela Compliance Zero sejam apurados “sem seletividade quanto às autoridades envolvidas”.

Quem é Daniel Vorcaro e o que é a Operação Compliance Zero

Vorcaro, ex-controlador majoritário do Banco Master, é o centro da Operação Compliance Zero, que apura suspeita de organização criminosa com atuação em crimes financeiros, corrupção institucional, ocultação de patrimônio e lavagem de dinheiro. O empresário foi preso pela primeira vez em novembro de 2025, solto com o uso de tornozeleira eletrônica, e voltou a ser preso em março de 2026, depois de a PF concluir que o grupo continuava escondendo bilhões de reais em nome de terceiros mesmo sob monitoramento. A investigação também identificou cerca de R$ 2,2 bilhões em ativos ocultos na conta do pai do empresário, além de conexões com ex-servidores do Banco Central e acesso não autorizado a sistemas de segurança pública usados por corporações como FBI e Interpol.

Um caso que já extrapolou o noticiário jurídico

A repercussão da suposta relação entre Moraes e Vorcaro já ultrapassou os limites do noticiário político e jurídico tradicional. O caso foi citado publicamente no palco do Rock in Rio pelo vocalista do Capital Inicial, Dinho Ouro Preto, durante um show para cerca de 80 mil pessoas na noite de abertura do festival, e também tem sido tema recorrente na campanha eleitoral de 2026, com candidatos à Presidência cobrando publicamente explicações do ministro e cada vez mais senadores protocolando pedidos de impeachment contra ele no Congresso Nacional.

Próximos passos

Com o procedimento agora concentrado sob supervisão direta de Fachin, a expectativa em Brasília é que as manifestações formais de Moraes, Mendonça, Gonet e Andrei Rodrigues, previstas desde a abertura do prazo de cinco dias no início do mês, sirvam de base para definir se o caso avança para uma investigação mais aprofundada dentro do próprio STF ou se permanece restrito à disputa institucional entre os ministros. Até a publicação desta reportagem, nem a defesa de Daniel Vorcaro havia se manifestado publicamente sobre o conteúdo específico do relatório que aponta Moraes como “informante de luxo”, nem a Polícia Federal havia detalhado publicamente quais medidas adicionais de verificação pretende adotar para confirmar a autoria das mensagens atribuídas ao ministro.

Fontes

Leia também