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Caso Vorcaro-Moraes vira tema da campanha eleitoral

Flávio Bolsonaro e Ronaldo Caiado cobraram publicamente ação contra o ministro Alexandre de Moraes em agendas de campanha neste fim de semana, enquanto o entorno de Lula evita se posicionar sobre as mensagens atribuídas ao ministro e a Daniel Vorcaro

Marina KesslerMarina Kesslerassinatura editorial do CityTudo

6 de setembro de 2026 · 5 min de leitura

Fachada do Congresso Nacional em Brasília, com as duas cúpulas do Senado e da Câmara dos Deputados sob céu azul de dia claro

O caso Vorcaro-Moraes deixou de ser só um imbróglio jurídico dentro do Supremo Tribunal Federal e virou tema explícito de campanha a menos de um mês do primeiro turno das eleições presidenciais. Neste sábado (5), dois pré-candidatos usaram agendas públicas para cobrar publicamente uma posição sobre o ministro Alexandre de Moraes, enquanto o entorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva segue evitando comentar diretamente as mensagens atribuídas ao magistrado e ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

Flávio Bolsonaro: “gabinete da perseguição”

Em Ponta Grossa, no Paraná, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) disse que Moraes conduz seu gabinete como um “gabinete da perseguição” e afirmou que “já passou da hora” de o Senado tratar formalmente do impeachment do ministro, declaração feita logo depois de uma visita ao ex-assessor de Jair Bolsonaro, Filipe Martins, que está preso. Flávio acusou Moraes de usar o inquérito das fake news para “perseguir adversários políticos” e afirmou que o ministro “escolhe seus alvos pré-determinados” antes de construir narrativas para condená-los. Questionado sobre críticas antigas que o próprio Sergio Moro já fez à condução de processos por parte de Moraes, o senador respondeu que “nada melhor que o tempo para mostrar quem é inocente”.

Caiado cobra fim do sigilo dos casos Master e INSS

No mesmo dia, durante visita à Expointer, feira agropecuária em Esteio, no Rio Grande do Sul, o governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) pediu a retirada do sigilo tanto do caso do Banco Master quanto da investigação sobre fraudes no INSS. “Não é justo que você, com dois processos de escândalos que se estendem a todos os níveis da política nacional e também de outros poderes, que esses dados sejam omitidos da sociedade”, afirmou o pré-candidato. Caiado associou diretamente a transparência dos dois casos à disputa eleitoral em curso, dizendo que “o que se pede em uma eleição é que o eleitor tenha conhecimento de tudo que está acontecendo no país”. O governador também elogiou publicamente o ministro André Mendonça por ter retirado o sigilo das mensagens entre Moraes e Vorcaro, e classificou o inquérito das fake news, aberto há sete anos, de “absurdo”.

O silêncio calculado da campanha de Lula

Do outro lado do espectro político, a campanha à reeleição de Lula tem adotado a estratégia oposta: evitar ao máximo qualquer associação direta entre o presidente e o ministro Moraes no noticiário sobre o caso Vorcaro. Segundo o Poder360, pesquisas internas encomendadas pela campanha petista vêm sendo usadas para calibrar o discurso da equipe de Lula sobre o tema, com o objetivo de direcionar o foco das críticas para a relação de Vorcaro com outras autoridades políticas e jurídicas, em vez de deixar o desgaste recair sobre o Palácio do Planalto. Até a publicação desta reportagem, o próprio Lula não havia comentado publicamente as mensagens trocadas entre Moraes e o ex-banqueiro, uma omissão que a oposição já cobra abertamente como sinal de proteção ao ministro.

Outros candidatos também usam o caso

Flávio e Caiado não são os únicos a explorar o tema na corrida presidencial. Segundo levantamento do Poder360 sobre a repercussão eleitoral do caso, outros nomes do campo mais à direita, como o senador Romeu Zema (Novo) e o pré-candidato Renan Santos (Missão), também se manifestaram cobrando providências contra Moraes desde que o relatório da PF ganhou repercussão nacional, ainda que com menos exposição de agenda do que Flávio e Caiado tiveram neste sábado. A disputa por quem consegue capitalizar melhor o desgaste do ministro virou, na prática, um pequeno campo de competição dentro da própria oposição, já que boa parte dos pré-candidatos de direita disputa o mesmo eleitorado crítico ao STF.

Um desgaste que incomoda até aliados do governo

A cautela da campanha de Lula não é gratuita. Internamente, o caso Vorcaro é visto como um risco real de desgaste também para a base governista, já que qualquer ligação entre o Planalto e o episódio pode ser explorada pela oposição no debate eleitoral daqui até outubro. Ao mesmo tempo, o silêncio prolongado de Lula sobre o tema abre espaço para que candidatos de perfis variados, de Flávio Bolsonaro a Caiado, ocupem esse espaço de crítica ao ministro, cada um explorando o caso de acordo com a própria estratégia de campanha: Flávio mirando diretamente o impeachment e o discurso de perseguição política, Caiado priorizando a bandeira da transparência de dados sensíveis às vésperas da votação.

Como o caso chegou até aqui

A raiz da polêmica está num relatório da Polícia Federal que teve o sigilo retirado pelo ministro André Mendonça em 1º de setembro. Como o CityTudo já mostrou, o documento aponta que a PF identificou 187 interações entre Daniel Vorcaro e um contato salvo em seu celular como “Alexandre de Moraes”, incluindo uma troca de mensagens de visualização única em novembro de 2025, e classifica o papel do ministro no esquema como o de um verdadeiro “informante de luxo” do banqueiro. O gabinete de Moraes nega qualquer participação nesse esquema, e o presidente do STF, Edson Fachin, assumiu diretamente a condução dos processos que apuram tanto essa relação quanto as acusações cruzadas que Moraes e Mendonça fizeram um contra o outro depois da revelação.

Impeachment também pressiona o Congresso

A disputa eleitoral não é o único front afetado pelo caso. Como também mostrou o CityTudo, o número de pedidos de impeachment contra Alexandre de Moraes já passa de 50, somando mais de cem requerimentos contra ministros do Supremo como um todo em tramitação simultânea no Senado, segundo o próprio presidente da Casa, Davi Alcolumbre. Esses requerimentos seguem represados na Mesa Diretora, mas o volume recorde já é tratado por analistas políticos como um sintoma de como o caso Vorcaro se tornou, ao mesmo tempo, uma crise jurídica dentro do STF e um ativo de campanha para parte do campo político que disputa a Presidência em outubro.

O que esperar até o primeiro turno

Com a votação marcada para 4 de outubro, a tendência é que o caso Vorcaro-Moraes continue sendo explorado de formas diferentes por cada campanha nas próximas semanas: como bandeira de combate à “perseguição política” pelo campo bolsonarista, como argumento de transparência institucional por candidatos como Caiado, e como tema a ser evitado, na medida do possível, pela campanha de reeleição de Lula. O desfecho jurídico do caso dentro do STF, hoje sob supervisão direta de Fachin, deve seguir seu próprio ritmo institucional, mas dificilmente vai deixar de aparecer nos discursos de campanha enquanto durar a apuração sobre a relação entre o ministro e o ex-banqueiro.

Fontes

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