13 ministros aposentados do STF pedem apuração a Fachin
Ex-presidentes da Corte, incluindo Rosa Weber, Joaquim Barbosa e Celso de Mello, enviaram carta classificando a crise entre Moraes e Mendonça como "a mais aguda" da história do Supremo e cobrando sessão pública urgente
Marina Kesslerassinatura editorial do CityTudo8 de setembro de 2026 · 6 min de leitura

Treze ministros aposentados e ex-presidentes do Supremo Tribunal Federal enviaram, na noite desta segunda-feira (7), uma carta de apoio ao atual presidente da Corte, Edson Fachin, pedindo que o plenário determine “imediata e rigorosa apuração, sob o devido processo legal” da crise que opõe publicamente os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça. Segundo o texto, obtido pela CNN, os fatos revelados nas últimas semanas vêm “comprometendo o prestígio e a autoridade desse Tribunal, a confiança do povo e até mesmo a estabilidade das instituições democráticas”.
O que diz a carta
O documento não cita nominalmente Moraes ou Mendonça, mas descreve o episódio como “a mais aguda crise” da história do STF. Os signatários afirmam ter “plena confiança na seriedade, discernimento e firmeza” de Fachin à frente da Corte neste momento, e dizem ter “absoluta convicção” de que ele vai convocar, “com toda a urgência”, uma sessão pública para que o Tribunal Pleno trate do assunto. A carta foi datada de 8 de setembro de 2026, data em que passou a circular oficialmente entre os ministros da ativa.
Quem são os 13 signatários
A lista, organizada por ordem de antiguidade de indicação ao Supremo, reúne nomes que passaram por diferentes momentos da história recente do tribunal: Néri da Silveira, Francisco Rezek, Sydney Sanches, Celso de Mello, Carlos Velloso, Ilmar Galvão, Nelson Jobim, Ellen Gracie, Cezar Peluso, Ayres Britto, Joaquim Barbosa, Eros Grau e Rosa Weber. O grupo inclui quatro ex-presidentes do STF (Sydney Sanches, Nelson Jobim, Cezar Peluso e Joaquim Barbosa) e magistrados que integraram a Corte em períodos que vão da redemocratização até a década passada, o que dá à carta um peso simbólico de reunir gerações diferentes do tribunal em torno do mesmo pedido.
Como a crise chegou a esse ponto
O estopim foi a decisão de André Mendonça, relator do caso do Banco Master no STF, de retirar o sigilo de um relatório da Polícia Federal com mensagens trocadas entre o empresário Daniel Vorcaro, fundador do banco, e um contato salvo em seu celular como “Alexandre de Moraes”, em 1º de setembro. Dois dias depois, Moraes reagiu pedindo a Fachin que levasse ao plenário acusações de abuso de autoridade contra Mendonça, alegando que o colega teria direcionado investigações da PF contra ele e contra o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, por motivações políticas. Fachin abriu então um prazo de cinco dias para que Moraes, Mendonça, o procurador-geral Paulo Gonet e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, se manifestassem por escrito sobre o episódio, prazo que já se esgotou sem uma decisão de mérito sobre o caso.
A pressão da rua que não parece ter pesado
A carta dos ministros aposentados chega no dia seguinte a atos de rua que pediam a saída de Moraes do STF, convocados pelo senador Flávio Bolsonaro na Avenida Paulista durante as comemorações de 7 de Setembro. Mas ministros do Supremo ouvidos pela CNN, tanto favoráveis quanto contrários a uma apuração sobre a relação de Moraes com Vorcaro, avaliam reservadamente que o protesto foi menor do que o esperado e não deve acelerar o ritmo de análise do caso. Segundo a reportagem, a própria direita reconhece que o ato deste ano atraiu menos gente que os de 2024 e 2025. Um dos ministros ouvidos pela reportagem chega a avaliar que a tentativa de pressionar Fachin por meio de um protesto político-eleitoral pode surtir efeito contrário, reforçando a disposição do presidente da Corte de não misturar a crise institucional ao calendário eleitoral.
Por que Fachin pode esperar até depois da eleição
Essa mesma apuração da CNN indica que a tendência dentro do STF é deixar a análise dos pedidos de investigação contra Moraes e Mendonça para depois do segundo turno das eleições de outubro, o que empurraria uma eventual discussão em plenário para o início de novembro. Se essa previsão se confirmar, a carta dos 13 ministros aposentados pode funcionar mais como um recado público de que o tribunal precisa dar uma resposta, ainda que não definitiva, do que como um gatilho para uma decisão imediata. É justamente esse compasso de espera, num caso que mistura a cúpula do Judiciário à disputa presidencial, que tem alimentado a crítica de que a crise expõe o Supremo à desconfiança popular sem prazo claro para uma solução.
“Setembro sangrento”: o alerta que já circulava antes da carta
Horas antes da carta se tornar pública, a jornalista Andréia Sadi já vinha alertando, em comentário na GloboNews, que a crise no STF “está longe do fim” e que uma fonte ligada ao caso resumiu o que vem pela frente como um “setembro sangrento”, com novos desdobramentos esperados tanto nas investigações em curso quanto nas reações dentro da própria Corte, num movimento que deve reverberar até o calendário eleitoral. A caracterização, feita por uma fonte que acompanha de perto os bastidores do tribunal, reforça a leitura de que o pedido dos ministros aposentados não encerra o assunto, mas se soma a uma sequência de eventos que ainda deve se estender ao longo do mês.
Quem é Daniel Vorcaro, o pano de fundo financeiro da crise
Toda a disputa entre Moraes e Mendonça tem como pano de fundo a Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que apura Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, por suspeita de comandar uma organização com atuação em crimes financeiros, corrupção institucional, ocultação de patrimônio e lavagem de dinheiro. Vorcaro foi preso pela primeira vez em novembro de 2025, solto com tornozeleira eletrônica e voltou a ser preso em março de 2026, depois de a PF concluir que o grupo continuava escondendo bilhões de reais em nome de terceiros mesmo sob monitoramento. Foi de um celular apreendido nessa investigação que saíram as mensagens que, segundo relatório da PF, ligariam Vorcaro a um contato salvo como “Alexandre de Moraes”, hoje o centro da crise institucional.
Próximos passos
Com o prazo de cinco dias dado por Fachin já vencido e sem resposta pública sobre o mérito das acusações cruzadas, a expectativa em Brasília é que a carta dos ministros aposentados aumente a pressão para que o presidente do STF marque uma data de fato para levar o caso ao plenário, mesmo que a discussão de fundo fique reservada para depois das eleições de outubro. Até a publicação desta reportagem, nem o gabinete de Moraes nem o de Mendonça haviam se manifestado sobre o conteúdo da carta, e o STF também não confirmou publicamente se e quando uma sessão sobre o tema será convocada. Como o CityTudo já mostrou, o caso já extrapolou os limites do noticiário jurídico e passou a aparecer em palanques eleitorais e até em shows de Rock in Rio, o que só reforça o tamanho da pressão pública que agora recai também sobre os ombros de Fachin.
Vídeo original de GloboNews. Assista na íntegra no canal original.


