Brasileiros nas midterms: 3 candidatos disputam vagas nos EUA
Felipe, Priscila e Rita concorrem a cadeiras estaduais na Flórida e em Massachusetts na terça-feira (3). Duas buscam reeleição sem adversário, e um pode ser o primeiro ex-beneficiário do Daca no Legislativo da Flórida
30 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

Nenhum brasileiro disputa uma cadeira no Senado ou na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos nas eleições de 3 de novembro. Mas há brasileiros nas midterms, e todos eles são da oposição a Donald Trump. O g1 localizou três candidatos a cargos legislativos estaduais, um na Flórida e dois em Massachusetts. Dois deles buscam reeleição e, como não têm adversário, estão praticamente garantidos.
Quem são os três candidatos
Felipe Sousa-Lazaballet, 40 anos, Flórida. É o único dos três em uma disputa de fato. Ele concorre pelo Partido Democrata à Câmara dos Representantes da Flórida, no Distrito 42, contra a republicana Bonnie Jackson. Natural de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, e filho de uma empregada doméstica cearense, chegou aos EUA aos 14 anos. Viveu cerca de 15 anos em situação migratória irregular, recebeu autorização de trabalho aos 26 por meio do Daca e se naturalizou americano em 2021.
O Daca é o programa federal criado no governo de Barack Obama que dava proteção temporária contra a deportação a imigrantes que entraram no país antes dos 16 anos. Foi eliminado por Trump em 2017, e a sigla vem de “Deferred Action for Childhood Arrivals”. Se eleito, Felipe poderá ser o primeiro ex-beneficiário do programa a integrar o Legislativo estadual americano, segundo o g1.
Ele trabalhou cinco anos na administração do prefeito de Orlando, Buddy Dyer, e atua em organizações de defesa dos direitos de imigrantes e da comunidade LGBTQ+. Em entrevista ao g1, contou que a adversária o ataca por ser imigrante e por viver há apenas dez anos na Flórida, mas que entre os eleitores a história dele costuma ser bem recebida. “Minha história de superação indica que eu sei o que é sofrer e ter que lutar pelo sonho americano”, disse. Entre as propostas dele está fortalecer o financiamento das escolas públicas.
Priscila Sousa, 38 anos, Massachusetts. Nascida em Ipatinga (MG), mudou-se para os EUA aos 7 anos e foi criada em Framingham, cidade com cerca de 8 mil brasileiros em uma população de 72 mil habitantes. Formou-se em Ciência Política, Relações Internacionais e Inglês pela Simmons University em 2009. Representa o 6º Distrito de Middlesex desde janeiro de 2023 e disputa a segunda reeleição. Segundo a lista eleitoral consultada pelo g1, só o nome dela aparece na disputa.
Priscila defende mais recursos para escolas públicas e apoio a estudantes imigrantes e de baixa renda, ampliação do acesso à saúde comunitária e mental, proteção legal aos direitos reprodutivos e um canal melhor entre o governo estadual e a comunidade brasileira e hispânica do distrito. Ela diz que a discriminação contra estrangeiros aumentou depois da volta de Trump à Presidência. “Continuamos lutando”, afirmou na entrevista.
Rita Mendes, 42 anos, Massachusetts. Nascida em Conselheiro Pena (MG), foi para os EUA com os pais em 2002, sem falar inglês. Advogada e corretora de imóveis, é deputada estadual desde janeiro de 2023 pelo 11º Distrito de Plymouth, com base em Brockton. Antes disso, foi eleita para o Conselho Municipal. O Partido Republicano não lançou candidato contra ela, o que a leva também a uma segunda reeleição quase sem risco. O g1 tentou falar com ela, mas não conseguiu contato.
Por que as duas vagas de Massachusetts são quase certas
Nos EUA, esse tipo de disputa é chamado de eleição sem oposição. Em distritos com forte inclinação política, onde um partido costuma vencer com mais de 70% dos votos, o outro frequentemente prefere poupar dinheiro e deixa a cadeira livre para o favorito. É o caso de Priscila e Rita. Só a eleição de Felipe, na Flórida, tem resultado em aberto.
O que está em jogo na terça-feira (3)
As midterms são as eleições de meio de mandato, que acontecem na metade do governo presidencial. Segundo o guia do g1, estão em disputa as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes, 35 das 100 do Senado e os governos de 36 estados. Os eleitos tomam posse em janeiro de 2027. Trump não está na cédula, e o mandato dele termina em janeiro de 2029.
Hoje os republicanos têm 218 cadeiras na Câmara, contra 214 dos democratas, um independente e duas vagas abertas. No Senado, são 53 republicanos e 47 no bloco democrata, contando dois independentes que votam com o partido. Como o vice-presidente J.D. Vance é republicano e dá o voto de desempate, os republicanos precisam de 50 cadeiras para manter o controle. Os democratas precisam de 51.
O clima é desfavorável ao presidente. Uma pesquisa Reuters/Ipsos divulgada em 19 de outubro mostrou 66% de desaprovação ao governo Trump e 31% de aprovação, o pior índice em seus dois mandatos. A insatisfação está ligada principalmente à economia e ao custo de vida. Na mesma sondagem, 47% dos eleitores disseram que pretendem votar em candidatos democratas ao Congresso, contra 35% nos republicanos. O InvestNews lembra que, entre 1946 e 2022, o partido do presidente perdeu cadeiras na Câmara em 18 das 20 eleições de meio de mandato.
A disputa também é a mais cara da história americana. O g1 informa que os gastos devem superar US$ 15 bilhões, e Trump anunciou em 20 de outubro US$ 400 milhões para candidatos republicanos. Para o Senado, a imprensa americana considera a disputa indefinida em sete estados: Maine, Iowa, Michigan, Alasca, Kansas, Ohio e Texas.
Uma vitória democrata na Câmara não derruba o presidente, mas pode travar projetos do governo e abrir espaço para os parlamentares barrarem ações da Casa Branca, como o próprio g1 descreve. O risco é admitido no campo republicano: Trump tenta mobilizar a base para evitar uma derrota histórica, segundo a Jovem Pan.
Como será a apuração
Cada estado conta os próprios votos, já que os EUA não têm um órgão nacional como o TSE. Na Flórida, a votação termina às 19h, e em Nova York, às 21h. Os primeiros resultados saem na noite de 3 de novembro, mas o controle do Congresso pode demorar dias para ser definido. Em 2022, a Câmara só teve o resultado fechado mais de uma semana depois, em parte por causa dos votos enviados pelo correio, que alguns estados demoram mais a contar. Neste ano, o voto antecipado já começou em vários estados.
Até o Vaticano entrou na conta. O Papa Leão XIV, nascido nos EUA, votou por correspondência e se tornou o primeiro pontífice a participar de uma eleição americana. Em comunicado, disse acreditar no “dever dos cidadãos de participar dos processos democráticos”. O pedido foi feito em 3 de outubro ao cartório eleitoral de Chicago, onde ele está registrado.
Para os brasileiros nas midterms, o desfecho mais esperado é a confirmação de Priscila e Rita nas cadeiras de Massachusetts. O resultado de Felipe, na Flórida, só deve ser conhecido depois do fechamento das urnas, às 19h no horário local de terça-feira.


