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Desmatamento na Amazônia cai 41,8% e é o menor da série histórica

Inpe aponta 3.335 km² derrubados entre agosto de 2025 e julho de 2026, o menor número desde 1988. No Cerrado, a queda de 23,8% leva o desmatamento ao patamar mais baixo desde 2001

Marina KesslerMarina Kesslerassinatura editorial do CityTudo

16 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

Vista aérea da floresta amazônica densa, com rio sinuoso e céu azul em plena luz do dia

O desmatamento na Amazônia caiu 41,8% entre agosto de 2025 e julho de 2026 e somou 3.335 km², o menor valor desde o início do monitoramento do Inpe, em 1988. Os números do Prodes foram divulgados nesta sexta-feira (16) pelo governo federal, em evento no Palácio do Planalto, e também mostram o Cerrado no menor nível de sua série histórica: 5.516,69 km² de vegetação nativa perdida, queda de 23,8% sobre o ciclo anterior.

Os números do Prodes 2026

O Prodes é o sistema que calcula a taxa oficial de desmatamento do país. Ele mede a área efetivamente suprimida a cada ciclo, de agosto a julho, e mapeia o chamado corte raso, a remoção completa da vegetação, em áreas a partir de 6,25 hectares. Segundo o g1, o ciclo anterior da Amazônia tinha fechado em 5.731 km². A comparação com os 3.335 km² atuais dá a queda de 41,8%.

Em quatro anos, a diferença é ainda maior. Em 2022, o desmatamento na Amazônia havia chegado a 11.594 km², segundo o levantamento do Inpe citado pelo g1. A redução desde então é de 71,2%. No Cerrado, o pico recente foi de 11.012 km² em 2023, e o resultado de agora é menos da metade disso, uma queda de 48,4%.

Há uma ressalva técnica que a CNN Brasil registrou na cobertura do anúncio: a taxa da Amazônia é uma estimativa e será consolidada no primeiro semestre de 2027. No Cerrado, o instituto trata os números como definitivos.

Quais estados mais desmataram

O Pará continuou liderando a lista dos estados com maior área desmatada na Amazônia, com 1.130 km², o equivalente a 33,9% do total do bioma. Mesmo assim, o estado teve queda de 45,3% sobre os 2.064 km² do ciclo anterior.

Mato Grosso aparece em seguida, com 849 km², e o Amazonas, com 525 km². Os dois também tiveram quedas expressivas, de 46,7% e 46,4%. Juntos, Pará, Mato Grosso e Amazonas concentraram cerca de 75% de tudo o que foi derrubado na Amazônia no período.

Os demais estados registraram, segundo o g1:

  • Roraima: 286 km², alta de 0,4% (de 285 km²), a única do bioma
  • Acre: 252 km²
  • Rondônia: 149 km²
  • Maranhão: 128 km²
  • Amapá e Tocantins: 8 km² cada

Roraima é o único ponto fora da curva, e a variação de um quilômetro quadrado não muda o quadro geral. Ainda assim, mostra que a queda não aconteceu de forma uniforme em todo o território.

O que o governo diz ter feito

Durante a coletiva, o ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, disse que ler os números “parece um sonho” e classificou a queda de “absolutamente estratosférica”, de acordo com a CNN Brasil. Ele atribuiu o resultado a um processo contínuo de combate ao desmatamento e à atuação do presidente Lula junto a estados e municípios.

O governo apresentou números de fiscalização para sustentar a leitura. Entre 2023 e 2026, o Ibama fez 76.095 ações de fiscalização em todo o país e aplicou R$ 11,8 bilhões em multas por infrações contra a flora. O secretário extraordinário de Controle do Desmatamento do ministério, André Lima, afirmou que o governo está ampliando o quadro de pessoal e os recursos do Ibama, “com mais tecnologia e inteligência”.

Entre os instrumentos citados pelo g1 está a retomada, em 2023, do PPCDAm, o plano de prevenção e controle do desmatamento na Amazônia Legal, criado em 2004. Uma das ferramentas é o embargo remoto: áreas desmatadas sem autorização são identificadas por satélite e bloqueadas sem operação em campo. O proprietário fica impedido de usar a área e de vender o que produzir nela. Soma-se a isso a maior atenção dos bancos ao desmatamento na concessão de crédito rural, o que dificulta financiamento para propriedades irregulares.

Como a queda vinha sendo anunciada

O resultado não surpreende quem acompanhava os alertas. Em fevereiro, quando o governo divulgou os dados do Deter, o sistema de alertas em tempo real do Inpe, a ministra Marina Silva já projetava o recorde. De agosto de 2025 a janeiro de 2026, foram 1.324 km² em alerta, contra 2.050 km² no mesmo período do ano anterior, queda de 35%, e a ministra disse haver “expectativa de chegarmos, em 2026, à menor taxa de desmatamento da série histórica na Amazônia”.

Antes disso, o Prodes de 2025 tinha mostrado queda de 11,08%, com 5.796 km² desmatados, contra 6.518 km² em 2024. Na época, a CNN Brasil informou que era a menor taxa em 11 anos e a terceira menor da série, o quarto ano seguido de redução depois de oito anos consecutivos de alta. O dado de agora aprofunda uma tendência de queda que já durava quatro anos.

Vale a diferença entre os dois sistemas. O Deter serve para orientar a fiscalização e mede alertas, enquanto o Prodes calcula a taxa oficial. Por isso os números não são diretamente comparáveis, e a taxa do Prodes costuma ficar acima da área apontada pelos alertas.

O Cerrado cai mais devagar

No Cerrado, o desmatamento de 5.516,69 km² é o menor desde o início da série, em 2001, mas a queda de 23,8% é bem menor que a da Amazônia. O g1 explica o motivo: o Código Florestal permite desmatar uma parcela maior das propriedades rurais no Cerrado, desde que haja autorização do órgão ambiental estadual. Na Amazônia, essa parcela é pequena.

Como boa parte da perda acontece em propriedades regularizadas, dentro do limite legal, multas e embargos não alcançam essa derrubada. Reduzir o ritmo, segundo a reportagem, depende de outros caminhos, como incentivos econômicos para o produtor manter a vegetação nativa e regras mais rígidas para as autorizações dos estados.

A pressão se concentra no Matopiba. A CNN Brasil informa que Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia somam mais de 74% de toda a área desmatada no Cerrado.

O que dizem ambientalistas e pesquisadores

Para o secretário-executivo do Observatório do Clima, Márcio Astrini, os números mostram que é possível crescer sem destruir. “A falsa narrativa, que às vezes é muito usada, de que meio ambiente atrapalha o desenvolvimento do país, cai por terra exatamente com esses números”, disse ao g1.

A pesquisadora do Inpe Luciana Gatti afirmou que o resultado é fruto de “vontade política”. Já Cristiane Mazzetti, coordenadora de Desmatamento Zero do Greenpeace Brasil, chamou o dado de marco histórico, mas deixou um alerta: manter a queda dependerá da atuação do governo federal, e “colocaremos tudo em risco se tivermos um governo antiambiental novamente”. A fala ganha peso porque o país está em plena campanha do segundo turno da eleição presidencial.

O diretor executivo do IPAM, André Guimarães, defendeu transformar o resultado em “compromisso permanente de Estado que independa dos ciclos políticos”. Claudio Almeida, coordenador do Programa BiomasBR, creditou a redução a controle e fiscalização apoiados em monitoramento rápido e preciso.

O que vem a seguir

O número da Amazônia ainda passará pela consolidação do Inpe, prevista para o primeiro semestre de 2027, e pode sofrer pequenos ajustes, como aconteceu com o ciclo anterior, que aparece com 5.731 km² nos dados de agora e foi divulgado em 2025 com 5.796 km². No Cerrado, o desafio é outro: a queda só deve acelerar se o desmatamento legal também diminuir, o que depende de decisões dos estados e de incentivos que ainda não saíram do papel.

A CNN Brasil lembra ainda que a plataforma MapBiomas apontou 693 mil hectares desmatados no bioma amazônico em 2025, também o menor índice da série daquela plataforma. As metodologias são diferentes, mas as duas medições apontam para o mesmo lado. O próximo termômetro será o Deter, que segue emitindo alertas mensais e vai indicar se o ritmo de queda se mantém no novo ciclo, iniciado em agosto.

Fontes

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