Fumaça em Manaus: Amazonas decreta emergência em 36 municípios
Capital tem a pior qualidade do ar entre as capitais do país, aulas foram suspensas e o governo federal enviou 290 brigadistas para conter queimadas que quase quadruplicaram em setembro
Marina Kesslerassinatura editorial do CityTudo17 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

A fumaça em Manaus virou o centro da crise ambiental do Amazonas neste mês de outubro. O governo estadual decretou situação de emergência em 36 dos 62 municípios do estado por causa dos incêndios florestais, e o governo federal reconheceu a emergência no mesmo dia, segundo a CNN Brasil. Na sexta-feira (16), a capital voltou a aparecer como a pior do país em qualidade do ar, com a prefeitura mantendo aulas e atividades suspensas.
O que diz o decreto de emergência
O decreto estadual, assinado pelo governador Roberto Cidade, foi publicado em edição extra do Diário Oficial no dia 10 de outubro e vale por 180 dias, de acordo com o levantamento do portal Amazonas1. O texto cita o agravamento dos focos de incêndio e os efeitos do El Niño na região, com chuva abaixo da média, temperaturas altas e piora da qualidade do ar.
Na prática, a emergência permite compras diretas e contratação de obras e serviços sem licitação, o que acelera a logística de combate ao fogo e de atendimento à população. A lista inclui Manaus e vários municípios da região metropolitana, como Iranduba, Manacapuru, Careiro, Careiro da Várzea, Presidente Figueiredo, Rio Preto da Eva e Novo Airão, além de cidades do sul e do interior do estado.
O Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional reconheceu a situação de forma sumária, procedimento que dispensa a análise detalhada quando o quadro é considerado evidente. Com isso, o estado pode pedir recursos federais para as ações de resposta.
Os números da fumaça em Manaus
Os índices de qualidade do ar da capital passaram dias na faixa mais crítica. Na sexta-feira (9), o monitor do Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), registrou 196,4 microgramas de material particulado por metro cúbico. No sábado (10), por volta das 6h, o índice chegou a 209, conforme o Poder360. A qualidade do ar é considerada boa até 25 microgramas por metro cúbico, e a medição ficou mais de oito vezes acima desse patamar.
Na sexta-feira (16), a plataforma internacional IQAir apontou índice de qualidade do ar de 167 às 6h, faixa classificada como insalubre, e Manaus voltou ao topo do ranking das capitais brasileiras, de acordo com o NC News. A reportagem registra que uma chuva na semana anterior havia derrubado o índice de 195 para 92, mas o alívio durou pouco: a concentração de partículas finas ainda superava em 6,3 vezes o limite anual recomendado pela Organização Mundial da Saúde.
A fumaça vem de queimadas no interior do Amazonas e também de estados vizinhos, como Rondônia, Pará e Mato Grosso. A falta de chuva faz os poluentes permanecerem na atmosfera por mais tempo, e o vento leva a fumaça até a capital.
Queimadas quase quadruplicaram em setembro
A origem do problema aparece nos dados de satélite. Em setembro, o Amazonas somou 3.726 focos de calor, quase quatro vezes o total do mesmo mês do ano anterior, segundo a cobertura do DGABC sobre o balanço divulgado em 10 de outubro. Antes do fechamento do mês, a Revista Amazônia já havia contabilizado 2.384 focos entre 1º e 19 de setembro, contra 624 no mesmo intervalo de 2025, uma alta de 282%. A mesma reportagem relata que o Rio Negro baixava em ritmo acelerado por causa da vazante.
No conjunto da Amazônia, o cenário é parecido. O 18horas publicou que o bioma tem 2,4 vezes mais focos de calor que no ano anterior no período analisado, em meio ao que chama de “Super El Niño”, e que o Pará concentra a maior parte das ocorrências. Há um contraponto importante: outra reportagem do mesmo veículo lembra que, mesmo com a alta, o número de queimadas no Amazonas em 2026 ainda equivale a cerca de 20% do recorde de 2024, segundo o Inpe. A crise é grave pela concentração da fumaça na capital, mas ainda não alcançou o pior ano da série recente.
Combate ao fogo e a investigação sobre a origem
O governo federal anunciou o envio de 290 pessoas e seis aeronaves para ajudar no combate, com coordenação dos ministérios do Meio Ambiente e da Integração. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, o Ibama extinguiu 229 incêndios no Amazonas desde o início da temporada de fogo e atuava em outros 20 focos ativos, informação também reproduzida pelo Poder360.
Sobre a causa, o ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, afirmou que o cenário indica ação humana intencional, de acordo com a CNN Brasil. A seca e o El Niño criam a condição para o fogo se espalhar, mas o início costuma estar ligado a queimadas para limpeza de pasto e abertura de áreas, que fogem do controle quando a vegetação está ressecada.
O Ministério Público de Contas do Amazonas também entrou no caso. O órgão levou ao Tribunal de Contas do Estado a atuação do governo no combate às queimadas e à fumaça, depois de uma nota técnica de 23 de setembro que já apontava 3.240 focos de calor até o dia 22, cerca de 244% acima do ano anterior.
Escolas fechadas e pressão sobre a saúde
Na sexta-feira (9), a Prefeitura de Manaus suspendeu as atividades escolares e as de órgãos municipais por causa da qualidade do ar, e universidades interromperam as aulas presenciais. A Defesa Civil do Amazonas disparou alertas nos celulares orientando a população a evitar a exposição à fumaça e a usar máscara ao sair de casa. A UEA também suspendeu atividades acadêmicas, e o NC News informa que as aulas presenciais da rede municipal seguiam suspensas na semana de 16 de outubro.
O impacto na saúde já aparece nas estatísticas. A Secretaria de Estado de Saúde registrou 82 atendimentos de urgência possivelmente ligados à fumaça entre 1º e 8 de outubro em Manaus, e 375 casos desde julho, de acordo com o Radar Amazônico. Os quadros mais comuns são falta de ar, tosse e irritação na garganta, e os grupos mais vulneráveis são crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias crônicas.
Há divergência entre os órgãos. A Secretaria Municipal de Saúde afirma que não identificou aumento significativo nos atendimentos da rede municipal, enquanto a secretaria estadual fala em alta expressiva na última semana. A prefeitura pediu ao Ministério da Saúde autorização para retomar a nebulização em cerca de 76 unidades de saúde, e uma equipe da Força Nacional do SUS passou a atuar no estado, de acordo com o Mix Vale.
A orientação oficial é procurar uma Unidade Básica de Saúde em casos leves e acionar o Samu pelo telefone 192 quando houver dificuldade intensa para respirar ou dor no peito.
O que esperar nos próximos dias
A chuva da semana passada mostrou o limite do alívio: o índice caiu de 195 para 92 e voltou a subir. Enquanto houver focos ativos no Amazonas e nos estados vizinhos, a capital tende a alternar dias de ar ruim e péssimo. O decreto de emergência vale por 180 dias, até abril de 2027. A retomada das aulas depende dos boletins do monitor Selva, da UEA, e dos dados de focos do Inpe, que seguem como referência para as secretarias.


