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BYD Atto 2 será o primeiro carro 100% brasileiro da marca, em dezembro

Executivo da BYD confirma que estamparia, soldagem e pintura de Camaçari entram em operação até o fim do ano e que a empresa quer comprar o antigo porto da Ford para exportar

Redação Carrosassinatura da editoria

29 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

Supercarro esportivo vermelho exposto na linha de montagem da BYD em Camaçari (BA), com autoridades e executivos ao fundo, na visita da inauguração da fábrica em 9 de outubro de 2025. O modelo exibido não é o Atto 2 (Foto: Ricardo Stuckert/PR, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0)

A BYD anunciou nesta quinta-feira (29) que o primeiro carro montado por inteiro no Brasil será o SUV híbrido plug-in flex Atto 2, com produção prevista para dezembro na fábrica de Camaçari, na Bahia. O vice-presidente da empresa, Alexandre Baldy, disse que a estamparia, a soldagem e a pintura já estão em testes e que a produção local começa “entre novembro e dezembro”, segundo reportagem do g1 Bahia. A mesma coletiva, realizada na sede da Federação das Indústrias da Bahia (Fieb), em Salvador, revelou que a montadora quer comprar o antigo porto da Ford para exportar a partir do estado.

O que muda na fábrica de Camaçari

Até agora, a unidade baiana funciona no regime SKD (Semi Knocked-Down). Os carros chegam da China parcialmente montados, e em Camaçari recebem partes como motor e pneus. Foi o desenho anunciado na inauguração, em 9 de outubro de 2025, quando a CNN Brasil registrou que a fábrica operaria assim no primeiro ano e que, em 2026, passaria a fazer estamparia, soldagem e pintura no país.

O g1 conheceu os novos complexos nesta semana e explica as etapas. Na estamparia, a chapa de aço é prensada no molde da peça. Na soldagem, as partes da carroceria são unidas. Na pintura, o carro recebe a camada anticorrosiva e a tinta. Só então vem a montagem final, com portas, vidros, pneus, motor e tanque, seguida das verificações. Com os três galpões prontos, a maior parte do processo sai da China e passa a acontecer em solo brasileiro.

Baldy disse que o regime de testes deve terminar em meados de novembro. A fábrica produz hoje cerca de 700 carros por dia, de acordo com a reportagem.

O Atto 2 e o preço

O Atto 2 DM-i Flex é um híbrido plug-in que aceita gasolina e etanol. O g1 informa que o carro custa entre R$ 149.990 e R$ 166.660. O Terra, na cobertura do lançamento, traz tabela diferente: R$ 149.990 para a versão GL e R$ 169.990 para a GS, ambos na venda direta. Quem for comprar deve conferir o valor vigente no site da marca, já que as duas publicações divergem no teto da faixa.

Pelos dados divulgados no lançamento e reproduzidos pelo Terra, a versão GL entrega 177 cv combinados e a GS, 197 cv, ambas com torque de 300 Nm. A BYD declara autonomia de até 1.000 km (GL) e 1.045 km (GS) com gasolina no ciclo NEDC, e 770 km combinados com etanol. No modo elétrico, a GL roda até 45 km e a GS, até 110 km. Os números são da fabricante, medidos em ciclo de laboratório, e o consumo real costuma ficar abaixo.

O modelo disputa espaço com Volkswagen T-Cross, Hyundai Creta, Honda WR-V, Nissan Kicks e Toyota Yaris Cross, segundo o Terra. É o segmento de maior volume do mercado brasileiro, e o plano da BYD é entrar nele com um carro que passe a contar como produto nacional.

Por que a nacionalização importa

Um carro feito com mais componentes locais tem vantagens regulatórias e comerciais. O g1 Bahia lembra que acordos como o do Mercosul exigem conteúdo local mínimo para que o produto circule com benefícios tarifários, e cita 35%. Uma semana antes, em entrevista à Reuters reproduzida pelo g1, Baldy falou em atender a exigência de 50% de nacionalização e disse que a unidade deve começar 2027 acima desse piso. As duas reportagens citam percentuais diferentes, e nenhuma delas detalha a qual regra cada número se refere.

A BYD vem sendo criticada por grupos da indústria local por depender de importações e de tarifas temporariamente baixas. Segundo o g1, nos oito primeiros meses do ano o Brasil importou 406,7 mil veículos, alta de 29,8% sobre o mesmo período de 2025, conforme a Anfavea. Mais da metade veio da China: 221 mil unidades, 109,9% a mais.

O presidente da Stellantis para a América do Sul, Herlander Zola, disse no início do mês que a indústria ocidental “errou” ao avaliar a velocidade da eletrificação. Ele também criticou a falta de regras que incentivem as montadoras a comprar de fornecedores nacionais. “Qual marca chinesa compra aço no Brasil hoje? Qual marca chinesa compra plástico no Brasil hoje? Nenhuma”, afirmou, em declaração citada pelo g1.

Os números da operação

Na coletiva, a BYD apresentou dados medidos pelo Observatório da Indústria da Fieb, parceira da empresa, com base em Rais, Caged e outras bases oficiais. A fábrica emprega 9 mil pessoas e deve chegar a 10 mil até o fim do ano. Com o investimento completo, serão 20 mil funcionários. A média salarial é de R$ 3,9 mil, 24% acima da média da indústria baiana.

O valor investido aparece de forma diferente nas fontes. O g1 Bahia cita R$ 11 bilhões em cerca de um milhão de metros quadrados de construção. A Reuters, na entrevista de 23 de outubro, falou em mais de R$ 5,5 bilhões, valor que também foi divulgado na inauguração. As reportagens não explicam a diferença, que pode refletir etapas distintas do projeto.

Na entrevista à Reuters, Baldy afirmou que a demanda por carros da BYD gira em torno de 30 mil unidades por mês, contra uma meta de produção de 25 mil mensais até o fim de 2026. Isso significa deixar de faturar de 5 mil a 6 mil vendas por mês. A empresa disse que as vendas faturadas da unidade brasileira chegariam a 200 mil carros no acumulado do ano e que setembro fechou com 22.209 emplacamentos, 8,5% do mercado.

A BYD também pediu licenças para dobrar a capacidade anual da fábrica para 600 mil veículos. Na inauguração, a capacidade inicial anunciada era de 150 mil por ano, com meta de dobrar até 2030. A meta declarada é ser a maior montadora do país em volume até 2030. Para comparação, o ranking de produção da Anfavea reproduzido pelo g1 mostra a Fiat na frente, com 723.365 unidades, seguida por Volkswagen (538.657) e General Motors (323.070).

O porto da Ford

A BYD também quer o Terminal Portuário Privativo Miguel de Oliveira, o “Porto da Ford”, em Candeias, a 35 km de Camaçari. O terminal foi construído no Canal de Cotegipe, na Baía de Aratu, para escoar os carros da Ford, e está desativado desde que a montadora deixou a Bahia, em 2021. Hoje pertence ao governo estadual.

“Nossa estratégia é sermos uma empresa regional contígua entre América do Sul, Central e Norte, onde aproveitaríamos essa estratégia para exportar a partir da Bahia”, disse Baldy. A empresa já tem pedidos de 50 mil unidades do México e outras 50 mil da Argentina, que poderá atender a partir de 2027, com o aumento do conteúdo local, segundo a Reuters.

O contexto da indústria

O anúncio vem num momento difícil para as montadoras tradicionais. A Volkswagen registrou prejuízo operacional de US$ 6,59 bilhões no terceiro trimestre, o pior resultado em mais de uma década, e prepara corte de 100 mil empregos no grupo, conforme o g1 Carros. A empresa cita a concorrência chinesa e os custos de tarifas entre as causas.

O que a BYD prometeu agora tem prazo curto e pode ser conferido. Se a produção local começar em dezembro, como disse o vice-presidente, a promessa estará cumprida dentro do prazo anunciado. O que falta divulgar é o índice de nacionalização efetivo do modelo, informação que a empresa ainda não detalhou.

Fontes

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