Como o super El Niño pode afetar a América Latina, principal região exportadora de alimentos do mundo
Fenômeno climático pode favorecer lavouras de soja e milho no sul da América do Sul, mas aumenta o risco de secas, enchentes e problemas logísticos em outras regiões
Helena Krugdo CityTudo19 de agosto de 2026 · 3 min de leitura

A América Latina se prepara para o que especialistas avaliam poder ser o El Niño mais forte já registrado, o que levanta dúvidas sobre os impactos do fenômeno na maior região exportadora de alimentos do mundo. O El Niño, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico tropical central e oriental, altera os padrões climáticos em todo o planeta.
Um fenômeno que pode superar 2015-2016
Pesquisadores esperam que o fenômeno ganhe força a partir de setembro e possa superar a intensidade do El Niño de 2015-2016, o mais forte já registrado até hoje. Um inverno excepcionalmente chuvoso no Hemisfério Sul, alterações nos ecossistemas marinhos do Pacífico e episódios de seca já afetam partes do Caribe e da Amazônia.
Boas notícias para as lavouras do sul
Nas férteis regiões dos Pampas argentinos, além de áreas do Paraguai, Uruguai e sul do Brasil, o El Niño costuma trazer chuvas acima da média. Germán Heinzenknecht, meteorologista da Consultoria de Climatologia Aplicada da Argentina, afirmou que o fenômeno pode favorecer as colheitas de soja, milho e trigo ao aumentar a umidade do solo para o plantio e ampliar a disponibilidade de água durante o verão, entre dezembro e fevereiro. O excesso de umidade, porém, pode favorecer doenças causadas por fungos e reduzir nutrientes do solo em áreas já fertilizadas.
Estradas rurais e portos sob risco
Um El Niño mais intenso também pode provocar enchentes em áreas rurais suscetíveis a esse tipo de evento. Estradas tomadas pela lama ou por alagamentos podem dificultar o acesso dos agricultores às lavouras, atrapalhando a aplicação de fertilizantes e defensivos agrícolas, já que muitas estradas rurais do sul da América do Sul já apresentam condições precárias. As fortes chuvas previstas para setembro também podem provocar inundações em cidades e nas rotas de acesso aos portos, o que já levou o governo do Paraguai a colocar unidades militares em alerta e mobilizar equipes de engenharia civil desde julho.
Pesca afetada no Peru
A costa norte do Peru enfrenta inundações, enquanto regiões mais elevadas do país sofrem com a escassez de água. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, esse padrão também pode se repetir no Chile e em outras áreas da costa do Pacífico. O aumento da temperatura do mar também está levando espécies de interesse comercial a migrar para águas mais profundas, reduzindo o volume pescado: a indústria pesqueira do Peru já registrou queda de 31% na atividade nos primeiros cinco meses do ano.
Efeito também no setor de energia
A distribuição desigual das chuvas pode beneficiar o crescente setor de exportação de energia da Argentina. Segundo a Organização Latino-Americana de Energia, a previsão de tempo mais quente e seco no norte e no oeste do Brasil pode aumentar a demanda por gás natural argentino para abastecer usinas termelétricas, enquanto o sul do Brasil e o nordeste da Argentina devem registrar aumento significativo das chuvas.
Com o fenômeno ainda em formação e a intensidade máxima esperada apenas a partir de setembro, produtores e governos da região têm nas próximas semanas uma janela para se preparar antes que os efeitos mais fortes cheguem à safra de verão.


