Frigoríficos brasileiros operam no vermelho após esgotar cota de carne para a China
Exportações de julho já caíram 10,4% frente a 2025 e Abiec projeta recuo de cerca de 10% no ano, à medida que o setor perde o principal comprador de carne bovina do país
Helena Krugdo CityTudo29 de agosto de 2026 · 3 min de leitura

O setor frigorífico brasileiro entrou no segundo semestre de 2026 em um momento bem diferente do que viveu na primeira metade do ano. Depois de embarcar volumes recordes de carne bovina para a China até junho, a indústria esgotou a cota que permitia vender ao país asiático com tarifa reduzida, e agora enfrenta uma retração nas exportações que já aparece nos números de julho.
A cota que virou gargalo
A China estabeleceu para 2026 uma cota de 1,106 milhão de toneladas de carne bovina brasileira com tarifa de importação de 12%; qualquer volume acima desse limite passa a pagar uma sobretaxa de 55%, o que praticamente inviabiliza novos embarques competitivos ao mercado chinês. O Brasil recebeu a maior cota entre os fornecedores do produto para a China, à frente de Austrália, Argentina, Uruguai e Estados Unidos, e chegou a preencher mais de 100% do limite já no primeiro semestre.
Julho já mostra o efeito
O Brasil embarcou 140,3 mil toneladas de carne bovina em 23 dias úteis de julho; no ritmo projetado para o mês fechado, o volume ficaria em torno de 248 mil toneladas, uma queda de 10,4% frente às 276,8 mil toneladas exportadas em julho de 2025. O preço médio da tonelada exportada subiu para US$ 6.387,70, alta de 15% em relação ao mesmo mês do ano passado, mas o ganho de preço não compensou a perda de volume para boa parte das plantas frigoríficas.
“Trabalhando no vermelho”
A situação já preocupa a principal entidade do setor. Segundo o presidente da Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes), a maioria das indústrias frigoríficas está operando com margem negativa neste segundo semestre, revertendo um período de resultados positivos: “Hoje, a maioria das indústrias está trabalhando no vermelho. Claro que elas vêm de alguns anos positivos, mas o momento atual é de margens negativas”. A entidade projeta uma retração de aproximadamente 10% nas exportações brasileiras de carne bovina ao longo de 2026 em comparação com o ano anterior, puxada principalmente pela redução das compras chinesas.
Como as fábricas estão reagindo
Para se ajustar ao novo cenário, frigoríficos vêm reduzindo o ritmo de abate, concedendo férias coletivas a funcionários e revendo escalas de produção para evitar embarques que seriam tarifados em 55% ao chegar à China. Ainda assim, o mercado interno segue absorvendo a maior parte do que é produzido: cerca de 70% da carne bovina brasileira fica no país, e apenas 30% vai para exportação, o que ajuda a amortecer parte do impacto da retração externa sobre o abastecimento doméstico.
O que vem pela frente
O primeiro semestre havia sido de recorde para o setor, com receita de US$ 9,93 bilhões em exportações, alta de 33,4% na comparação anual, e a China respondendo sozinha por quase metade do faturamento externo da carne bovina brasileira. A recuperação das margens dos frigoríficos agora depende de dois fatores: a abertura de novos mercados que absorvam o volume que deixou de ir à China, como Estados Unidos, Hong Kong, Uruguai e Argentina, e a eventual renegociação de uma cota maior para o próximo ciclo de exportação ao mercado chinês.


