Liraglutida: o peptídeo pioneiro que virou genérico barato no Brasil
Antes do Ozempic e do Mounjaro, a liraglutida (Saxenda e Victoza) já era peptídeo aprovado para diabetes e obesidade; com a patente vencida, ficou mais barata, mas segue com efeitos colaterais e alerta de tireoide
Cecília Pradoassinatura editorial do CityTudo4 de setembro de 2026 · 5 min de leitura

Antes de a semaglutida e a tirzepatida virarem sinônimo de emagrecimento nas redes sociais, já existia um peptídeo aprovado para tratar diabetes e obesidade: a liraglutida. Vendida como Victoza (diabetes) e Saxenda (obesidade), ela foi a primeira dessa geração de medicamentos injetáveis a chegar às farmácias brasileiras, e continua sendo prescrita mesmo depois de a patente ter vencido no país em 2024, o que abriu caminho para versões genéricas mais em conta.
O que é a liraglutida
A liraglutida é um análogo do GLP-1, hormônio intestinal que estimula a liberação de insulina após as refeições, reduz a produção de glucagon pelo fígado e retarda o esvaziamento do estômago, o que aumenta a sensação de saciedade. O mecanismo é o mesmo grupo farmacológico da semaglutida e da tirzepatida, mas a estrutura molecular da liraglutida é mais simples e sua meia-vida no organismo é mais curta, o que exige aplicação diária, diferente da injeção semanal que popularizou os medicamentos mais recentes.
De Victoza a Saxenda: dois nomes, um mesmo peptídeo
A diferença entre Victoza e Saxenda não está na substância, e sim na dose e na indicação aprovada. Victoza é voltado ao tratamento de diabetes tipo 2, enquanto Saxenda é indicado especificamente para controle de peso, com dose mais alta. Ambos usam a mesma molécula de liraglutida, e essa lógica de duas marcas para uma substância se repetiu depois com a semaglutida (Ozempic e Wegovy) e a tirzepatida (Mounjaro e Zepbound).
Os benefícios comprovados em estudos com humanos
Diferente de peptídeos vendidos informalmente, a liraglutida tem décadas de estudos clínicos em humanos por trás da aprovação. O programa de estudos SCALE, que sustentou o registro da Saxenda, mostrou perda de peso média em torno de 8% do peso corporal em pacientes com obesidade. Uma revisão sistemática mais recente da Cochrane, que reuniu 24 ensaios clínicos com quase 10 mil participantes, encontrou uma redução média mais modesta, de cerca de 4% a 5% do peso corporal, mas confirmou que a liraglutida aumenta de forma consistente a proporção de pacientes que perdem pelo menos 5% do peso em comparação com placebo.
Além do efeito na balança, a liraglutida tem outro benefício documentado em humanos que a diferencia de peptídeos mais recentes: proteção cardiovascular comprovada. O estudo LEADER, publicado no New England Journal of Medicine com mais de 9,3 mil pacientes com diabetes tipo 2 e alto risco cardiovascular, mostrou redução de eventos vasculares graves e de mortes por qualquer causa no grupo tratado com liraglutida em comparação ao placebo, com acompanhamento médio de quase quatro anos. Foi um dos primeiros resultados desse tipo entre os agonistas de GLP-1, e ajudou a consolidar a classe como opção também para reduzir risco cardiovascular, não só para controlar glicemia ou peso.
Por que perde para a semaglutida e a tirzepatida
Apesar do histórico, a liraglutida ficou para trás na corrida da indústria farmacêutica. A semaglutida tem eficácia média de perda de peso em torno de 15%, quase o dobro da liraglutida, além de exigir apenas uma aplicação semanal em vez de diária. A tirzepatida, mais recente ainda, combina dois mecanismos de ação (GLP-1 e GIP) e supera as duas anteriores em estudos comparativos diretos. Esse gap de eficácia é o principal motivo pelo qual a liraglutida deixou de ser a primeira escolha de endocrinologistas, mesmo continuando aprovada e disponível.
Genérico chegou e derrubou o preço
Com a patente vencida no fim de 2024, o mercado brasileiro de liraglutida mudou rápido. Em agosto de 2025 a farmacêutica EMS lançou as versões Olire e Liruz, e já no primeiro mês as vendas totais de liraglutida no país cresceram 154,5%, com os produtos da EMS ficando com mais da metade desse mercado. Como resultado, o preço da caneta caiu para a faixa de R$ 219 a R$ 300, menos da metade do que se pagava quando só existiam as marcas originais Saxenda e Victoza. O mesmo movimento de queda de preço com a chegada de genéricos deve se repetir com a semaglutida, cuja patente no Brasil vence a partir de 2026, segundo o setor farmacêutico.
Efeitos colaterais mais comuns
Os efeitos colaterais da liraglutida seguem o padrão de toda a classe dos agonistas de GLP-1: náusea, diarreia, vômito e desconforto gastrointestinal, mais frequentes no início do tratamento e durante o aumento gradual da dose. A própria revisão da Cochrane aponta que pacientes tratados com liraglutida relatam mais eventos adversos, inclusive graves, do que os que tomam placebo, sendo os sintomas digestivos os mais comuns entre eles. Parte dos pacientes interrompe o tratamento por causa desses sintomas, especialmente nas doses mais altas usadas para emagrecimento.
O alerta sobre câncer de tireoide
Assim como outros medicamentos da mesma classe, a liraglutida carrega um alerta relacionado à tireoide. Estudos pré-clínicos em roedores associaram agonistas de GLP-1 a tumores nas células C da tireoide, o que levou à contraindicação formal do medicamento para quem tem diagnóstico pessoal ou histórico familiar de carcinoma medular de tireoide ou da síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (NEM2). É importante o contexto: até o momento, estudos em humanos, incluindo o próprio LEADER, não confirmaram de forma consistente esse mesmo risco de câncer de tireoide, e a restrição por precaução vale mesmo para quem já teve o tumor e está curado. A Anvisa também mantém alerta sobre risco de pancreatite aguda associado ao uso indevido dessas canetas, e o uso na gravidez e amamentação não é recomendado.
Onde a liraglutida se encaixa no mapa dos peptídeos
Diferente de peptídeos vendidos informalmente, como o BPC-157, a liraglutida percorreu todas as fases de estudo clínico exigidas por agências reguladoras e tem registro de longa data na Anvisa, no FDA e na agência europeia EMA. Ela também é um contraponto interessante à cagrilintida, peptídeo mais recente que combinado à semaglutida no CagriSema já supera os resultados da própria semaglutida isolada: a liraglutida mostra o quanto essa classe de medicamentos evoluiu em pouco mais de uma década, saindo de uma perda de peso média de 8% para índices acima de 20% nas combinações mais recentes.
Para entender o panorama completo dos peptídeos, aprovados ou ainda em estudo, vale conferir o guia de peptídeos do CityTudo, que reúne o que já é medicamento reconhecido e o que ainda depende de mais pesquisa. O uso de qualquer peptídeo aqui citado exige avaliação e acompanhamento médico individual.


