Fora do Mapa da Fome, 44,8 milhões ainda não pagam por comida saudável
Relatório da ONU mostra que a insegurança alimentar caiu no Brasil, mas a dieta saudável custa US$ 4,89 por dia e pesquisa agrícola voltada à exportação encarece frutas e verduras
30 de outubro de 2026 · 7 min de leitura

O Brasil saiu do Mapa da Fome, mas 44,8 milhões de brasileiros, cerca de um quinto da população, ainda não têm renda para manter uma alimentação saudável. O número consta do relatório “O Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição no Mundo” (Sofi), da agência da ONU para a Alimentação e a Agricultura (FAO), e foi destrinchado pelo g1 nesta sexta-feira (30) a partir dos dados do documento, publicado em julho com informações até 2025.
A distinção importa. Sair do Mapa da Fome significa que menos de 2,5% da população tem consumo habitual de calorias insuficiente para viver. Não conseguir pagar por uma dieta saudável é outra régua, bem mais exigente: cereais, frutas, verduras, leguminosas e fontes de proteína nas quantidades que a ONU recomenda. O primeiro indicador melhorou muito. O segundo ainda atinge milhões de famílias, e a razão passa pelo campo, pelo preço da comida fresca e pelo lugar onde cada pessoa mora.
O que o relatório da ONU mostra
No triênio de 2023 a 2025, 20,3 milhões de brasileiros enfrentaram insegurança alimentar moderada ou grave. No período anterior, de 2021 a 2023, eram 39,7 milhões, segundo a reportagem do g1. A queda é grande, e o Brasil confirmou em julho de 2026 que seguiu fora do Mapa da Fome, com a subnutrição abaixo de 2,5% em 2025. O Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional mantém uma página com o relatório Sofi 2026 para quem quiser consultar os dados completos.
O custo da dieta saudável, porém, segue em alta. Em 2025, chegou a 4,89 dólares internacionais por pessoa, por dia, contra 3,97 em 2021. O dólar internacional não é uma moeda que se compra no banco: é uma medida que compara o poder de compra entre países e, por isso, não dá para converter o valor em reais pela cotação do dia.
Já o contingente que não consegue pagar essa dieta bateu o pico em 2021, no auge da pandemia, e vem recuando. De acordo com levantamento do InfoMoney sobre o relatório, a proporção chegou a 31,1% da população naquele ano, o equivalente a 65,3 milhões de pessoas, e caiu para 21,1% em 2025, os 44,8 milhões do título. A cobertura do SBT News registra ainda que a insegurança alimentar severa atinge cerca de 1,2 milhão de pessoas.
Como a ONU chega a esse número
A conta compara o custo de uma cesta variada de alimentos com a renda que sobra depois das despesas básicas, como moradia, vestuário e transporte. A cesta reúne 11 alimentos capazes de fornecer, juntos, cerca de 2.330 calorias diárias por pessoa, sempre os produtos mais baratos disponíveis em cada país que cumpram as recomendações de uma dieta equilibrada. Eles se dividem em seis grupos: cereais, raízes e tubérculos, carnes, peixes, ovos e laticínios, leguminosas, castanhas e sementes, óleos e gorduras, frutas, e verduras e legumes.
O g1 perguntou à FAO quais alimentos entraram no cálculo para o Brasil e não recebeu resposta até a publicação da reportagem. Assim, a lista exata da cesta brasileira não é pública no material consultado, e vale ler o número como estimativa internacional comparável, não como o preço de um carrinho de supermercado.
Salário mínimo não cobre a cesta saudável
O especialista Graziano, ouvido pelo g1, traduz o dado em reais. Segundo ele, uma cesta saudável custaria hoje de R$ 240 a R$ 250 por mês por pessoa. Para uma família de quatro, isso soma cerca de R$ 1 mil, quase todo o salário mínimo de R$ 1.621. “Só pode pagar quem ganha mais que o mínimo”, afirma.
Os reajustes do mínimo acima da inflação, um dos motores da melhora recente, não bastaram porque os preços da comida subiram mais rápido que os salários em parte do período. E os alimentos frescos sobem mais que os industrializados. “A salsicha sobe menos do que o preço da alcatra, da picanha. Varia menos”, diz Graziano, lembrando que carne e produtos frescos dependem de transporte refrigerado e armazenagem especial.
Silvia Aparecida Zimmermann, coordenadora da Rede Penssan, aponta o outro lado: os ultraprocessados custam menos porque usam matérias-primas baratas e abundantes no país, como açúcar, gorduras e derivados de soja. “A gente produz muita soja, então o custo fica muito mais barato que outros componentes”, explica. Ela também liga a insegurança alimentar à instabilidade do trabalho. “A trabalhadora doméstica, por exemplo, tem muita descontinuidade na renda. Por isso, sua família fica mais sujeita à insegurança alimentar.”
Por que verdura e fruta pesam no bolso
Aqui o assunto cai de vez na agricultura. As hortaliças têm ciclo curto de plantio e colheita, o que as deixa expostas a secas e enchentes capazes de destruir lavouras inteiras e encarecer o produto em poucos dias. Zimmermann diz que o problema se agravou com os eventos climáticos extremos. Combustíveis e fertilizantes importados, também sensíveis ao mercado internacional, subiram com as guerras no Oriente Médio e na Ucrânia e elevaram o custo de produzir e transportar comida.
Graziano acrescenta um problema de prioridade na pesquisa. Segundo ele, os recursos para pesquisa agropecuária são “fortemente enviesados” para produtos de exportação, como soja, milho e carne bovina, enquanto frutas, verduras, legumes, arroz e feijão recebem menos atenção. Embrapa Hortaliças e Embrapa Feijão desenvolvem novas variedades, mas os avanços são pequenos perto dos de outros segmentos, avalia ele. Na prática, a pesquisa poderia entregar variedades mais resistentes à seca e ao calor e técnicas que reduzam perdas climáticas.
Elisabetta Recine, presidente do Consea, vai na mesma direção ao olhar a geografia da produção. Ela lembra que até polos de fruticultura nasceram voltados ao mercado externo, como o Vale do São Francisco, em Pernambuco, que produz manga e uva sobretudo para Europa e Estados Unidos. “Não faz sentido, por exemplo, você produzir maçã em Santa Catarina e levá-la para Manaus”, disse. Circuitos longos de distribuição somam transporte, armazenagem e refrigeração ao preço final.
Desertos e pântanos alimentares
Preço não é a única barreira. Dados do Ministério do Desenvolvimento Social citados pelo g1 indicam que cerca de 25 milhões de brasileiros viviam em desertos alimentares entre 2023 e 2024, regiões com pouca ou nenhuma oferta de comida fresca. Desse total, 6,7 milhões eram de baixa renda ou viviam na pobreza. Os chamados pântanos alimentares, onde há mais pontos de venda de ultraprocessados do que de alimentos saudáveis, abrigavam cerca de 15 milhões de pessoas, das quais aproximadamente 104 mil em favelas e comunidades urbanas.
“As periferias urbanas são extremamente desabastecidas. Se você entra num mercadinho, vai encontrar os produtos básicos secos, como arroz e feijão, porque têm tempo de prateleira grande. De fresco, encontra uma banana, uma batata, uma cebola”, descreve Recine. Para quem mora ali, a feira livre e o hortifrúti de bairro não estão no caminho do dia a dia.
O que os especialistas propõem
Os entrevistados do g1 defendem encurtar a distância entre quem planta e quem come. Entre as medidas citadas estão a criação de feiras livres e outros pontos de venda direta, a isenção de taxas para feirantes e o reforço à agricultura familiar, responsável por 60% da produção de hortaliças. A ampliação do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), em que o poder público compra de agricultores familiares e destina os alimentos a escolas, hospitais e pessoas em vulnerabilidade, é o instrumento mais citado.
O governo federal, por sua vez, implanta o Protocolo Brasil Sem Fome, que integra serviços de saúde, assistência social e segurança alimentar para alcançar a população em extrema vulnerabilidade. Recine afirma que o problema nem sempre é a ausência de contato com o Estado, mas a falta de continuidade. Ao falar de uma pessoa em situação de rua que chega a um abrigo ou a um posto de saúde, ela diz que “chega e vai embora. Ninguém a acolhe no sentido de dizer: fique aqui, você não precisa só de um curativo”, exemplifica.
O risco de retroceder
O Brasil saiu do Mapa da Fome em 2014, voltou em 2022, em meio a avanço da pobreza, efeitos da pandemia e enfraquecimento de políticas de apoio à produção e distribuição de alimentos, e deixou o mapa de novo em 2025, segundo o relatório divulgado pela ONU naquele ano. Em 2022, o levantamento da ONU contabilizava 61,3 milhões de brasileiros em insegurança alimentar e 4,1% da população subnutrida, ou 8,6 milhões de pessoas.
Por isso os especialistas ouvidos são unânimes: o país não pode retroceder no combate à fome no quarto mandato de Lula. Graziano lembra que, apesar de a Constituição garantir o direito à alimentação, as políticas de segurança alimentar não são de Estado, como as de saúde e educação, que têm percentual garantido do orçamento. A saída, resumem, passa por elevar a renda, apoiar a produção agrícola de alimentos para o mercado interno e assegurar recursos contínuos aos programas.


