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Como os EUA ajudaram a financiar pesquisa que criou cães-robôs chineses vendidos no mundo todo

Reportagem da Reuters mostra que os projetos de maior sucesso da chinesa Unitree se baseiam em inovações financiadas pelas Forças Armadas americanas; empresa também passou a fornecer robôs para uso militar

Felipe TanakaFelipe Tanakado CityTudo

19 de agosto de 2026 · 2 min de leitura

BigDog, robô quadrúpede desenvolvido com apoio militar dos EUA (Domínio público, Wikimedia Commons)

A Unitree Robotics da China, uma das maiores fabricantes mundiais de robôs humanoides e quadrúpedes, baseou os projetos de seus cães-robôs de maior sucesso em inovações financiadas pelas Forças Armadas dos Estados Unidos, segundo um ex-funcionário da área de tecnologia de defesa dos EUA e três pesquisadores de ponta envolvidos no projeto, ouvidos pela Reuters.

O robô que dominou o mercado

Lançado em 2023, o modelo Go2 da Unitree, vendido por US$ 1.600, ajudou a empresa a dominar rapidamente o mercado global de robôs quadrúpedes, culminando em uma oferta pública inicial em Xangai que gerou demanda frenética. Outro robô da empresa chegou a ser exibido na televisão estatal chinesa, armado e acompanhando tropas do Exército Popular de Libertação em um exercício.

A origem militar americana da tecnologia

Segundo a reportagem, esses robôs se baseiam em avanços no movimento quadrúpede financiados pelo Laboratório de Pesquisa do Exército do DEVCOM dos EUA e por outros programas militares americanos. Gavin Kenneally, ex-pesquisador da Universidade da Pensilvânia envolvido no programa, disse à Reuters que o projeto financiado pelo Exército se tornou basicamente o primeiro robô da Unitree que teve alguma escala.

Ben Katz, que trabalhou no Laboratório de Robótica Biomimética do MIT como parte de um consórcio financiado por programas militares, afirmou que as dimensões da popular série Go da Unitree eram quase idênticas, ao milímetro, às de um robô que ele ajudou a desenvolver, chamado Mini Cheetah.

Um problema maior de competitividade industrial

O episódio expõe uma questão mais ampla sobre a capacidade dos Estados Unidos de competir com o setor manufatureiro chinês em indústrias estratégicas de alta tecnologia. Apoiadas por subsídios e clusters de fábricas de componentes, as empresas chinesas conquistaram participação de mercado em setores como painéis solares, drones, veículos elétricos e comunicações quânticas, muitos deles desenvolvidos inicialmente nos EUA com apoio governamental ou militar. Kenneally chegou a comercializar as inovações americanas por meio de sua própria empresa, a Ghost Robotics, que fornece robôs às forças especiais dos EUA, mas em escala muito menor que a da concorrente chinesa.

Pentágono já classificou a Unitree

Em junho, o Pentágono incluiu a Unitree em uma lista de empresas militares chinesas, classificando-a como contribuinte da base industrial de defesa chinesa, uma designação que não chega a ser uma sanção, mas limita o uso futuro da tecnologia da empresa pelas Forças Armadas americanas. A Unitree afirma que seus robôs se destinam ao uso civil e não respondeu, assim como o governo chinês, a pedidos de comentário da Reuters.

Uma questão sem resposta simples

O caso ilustra um dilema recorrente em tecnologias de dupla utilização, civil e militar: pesquisa financiada com dinheiro público de um país pode acabar impulsionando a indústria de outro, especialmente quando a capacidade de escalar a produção em massa, historicamente uma vantagem chinesa, decide quem chega primeiro ao mercado global com o produto final.

Fontes

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