Quatro em cada dez brasileiros se sentem solitários, aponta pesquisa
Levantamento da ONG Family Talks com a Market Analysis mostra que amizade passou a ter papel central na vida emocional dos adultos
Duda Nogueirado CityTudo17 de agosto de 2026 · 3 min de leitura

Uma pesquisa da ONG Family Talks em parceria com o instituto Market Analysis mapeou como os brasileiros lidam com a solidão, e o retrato chama atenção. Segundo reportagem do O Globo sobre o levantamento, a solidão já afeta quatro em cada dez brasileiros, atingindo mais mulheres, jovens e pessoas de baixa renda. Entre quem relata esse sentimento, 46,2% são mulheres, número replicado por veículos regionais que cobriram os dados do estudo. O levantamento também mostra que quanto maior o estresse relacionado à vida digital, maior a solidão relatada, um padrão mais forte entre os grupos de 18 a 44 anos, o que contraria a percepção comum de que a solidão afeta sobretudo pessoas mais velhas.
A pesquisa foi conduzida pelo instituto Market Analysis, empresa de pesquisa de opinião e comportamento que mantém parceria recorrente com a Family Talks em levantamentos sobre família e bem-estar social no Brasil.
O papel da amizade
Para os pesquisadores, a amizade deixou de ser vista como algo complementar e passou a ter papel estruturante na vida emocional de muitos adultos. Essa mudança acompanha uma transformação mais ampla no perfil das relações no país: dados do Registro Civil compilados pelo IBGE mostram queda persistente no número de casamentos desde 2015, com uma média anual de pouco mais de 1 milhão de casamentos entre 2015 e 2019 recuando para cerca de 970 mil em 2022, mesmo após o fim das restrições da pandemia. Ao mesmo tempo, cresce o número de pessoas que escolhem ficar solteiras por mais tempo, seja por opção pessoal, seja por prioridade profissional.
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O paradoxo das redes sociais
Um dos achados mais discutidos da pesquisa é o papel ambíguo das redes sociais: ao mesmo tempo em que facilitam manter contato com um número maior de pessoas, o tempo de tela elevado aparece associado a níveis maiores de solidão relatada entre os entrevistados. A psicóloga clínica Brenda Mendes, citada na cobertura do levantamento, explica que a dificuldade de criar novas amizades na vida adulta está ligada à própria rotina do dia a dia: na infância e na adolescência a convivência é repetida e praticamente obrigatória, o que facilita o vínculo, enquanto na vida adulta as relações deixam de ser estruturadas pelo ambiente e passam a depender de iniciativa individual, que exige esforço e disposição emocional constantes. A quantidade de conexões digitais, segundo essa leitura, não substitui a qualidade do convívio presencial.
O que os dados sugerem
Diante desse quadro, a orientação que se extrai do próprio desenho da pesquisa é cultivar ativamente vínculos de amizade na vida adulta, algo que muitas vezes exige esforço deliberado numa fase da vida marcada por rotinas de trabalho intensas e menos oportunidades espontâneas de socialização do que na juventude. Isso pode significar coisas simples, como manter encontros presenciais recorrentes com um grupo pequeno de amigos, participar de atividades coletivas regulares, sejam elas esportivas, culturais ou religiosas, ou reservar tempo de qualidade sem tela para conversas presenciais. Como o próprio estudo aponta que o problema tende a ser mais agudo entre os mais jovens, isso sugere que a resposta passa menos por mais conexão digital e mais por espaços de convívio presencial acessíveis a essa faixa etária.

