Trabalhador da BYD morre após cair de 13 metros e MPT abre inquérito
Xiaoqing Huang, chinês terceirizado, trabalhava no teto da fábrica de Camaçari. O Ministério Público do Trabalho quer saber se houve equipamento de proteção e treinamento, numa obra que já foi alvo de acordo de R$ 40 milhões
20 de outubro de 2026 · 5 min de leitura

Um trabalhador da BYD morreu na segunda-feira (19) depois de cair de cerca de 13 metros de altura na fábrica da montadora em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador. O Ministério Público do Trabalho (MPT) anunciou nesta terça-feira (20) a abertura de um inquérito para apurar as responsabilidades pelo acidente, segundo o g1 Bahia.
A vítima é o chinês Xiaoqing Huang, identificado pela Polícia Civil. Ele era terceirizado e fazia um serviço no teto de uma das áreas da fábrica quando caiu. Foi socorrido e levado a uma unidade de saúde logo depois da queda, mas não resistiu aos ferimentos.
O que se sabe sobre o acidente
As informações públicas ainda são poucas. O que está confirmado pelas fontes oficiais é que o acidente aconteceu na segunda-feira, que a altura da queda foi de aproximadamente 13 metros e que o trabalho era feito em cobertura, uma das atividades de maior risco na construção e na manutenção industrial.
O corpo de Huang seguia nesta terça no Instituto Médico Legal (IML) de Camaçari, sem previsão de liberação. Não há definição sobre uma eventual transferência para a China, país de origem do trabalhador.
Também não foi divulgado qual empresa prestadora de serviços empregava o operário. A BYD e a contratada divulgaram nota na segunda-feira em que lamentaram a morte e manifestaram solidariedade a familiares, amigos e colegas. A montadora afirmou que as circunstâncias do acidente estão sob apuração e que presta todo o apoio necessário à família.
O que o MPT vai investigar
Em nota, o MPT explicou que o inquérito tem dois objetivos principais. O primeiro é identificar quem responde pelo acidente. O segundo é verificar se as normas de segurança do trabalho foram seguidas pelo empregador, tanto na oferta de equipamentos de proteção individual quanto no treinamento dos protocolos para atividades de risco.
O órgão também diz que a prioridade é garantir medidas preventivas para que outros trabalhadores não sofram acidentes parecidos. A investigação terá a colaboração de outros órgãos públicos, como a Polícia Civil, e o MPT vai pedir informações à Superintendência Regional do Trabalho da Bahia (SRT-BA), responsável pela fiscalização das condições de trabalho.
Um trecho da nota do MPT resume o método: “Serão expedidos ofícios para colher novas informações e as empresas serão notificadas a apresentar informações sobre procedimentos de prevenção de acidentes e proteção da saúde física e mental de empregados diretos e trabalhadores terceirizados”.
A menção a trabalhadores terceirizados não é detalhe. Em obras e manutenção de grandes plantas, a cadeia de contratação costuma ter várias camadas, e a pergunta jurídica central em casos assim é quem responde pela segurança de quem está no teto: a contratante, a prestadora ou ambas. É isso que o inquérito deve esclarecer, e só a conclusão do MPT vai dizer.
Um histórico que pesa sobre a investigação
A BYD já esteve no centro de uma apuração grave do MPT em Camaçari. Em 2024, o MPT na Bahia abriu inquérito depois de uma denúncia anônima, recebida em 30 de setembro, sobre as condições de trabalho de operários chineses na construção da fábrica. A inspeção ocorreu em 11 de novembro, conforme relatou o Bahia Notícias.
Entre 23 e 26 de dezembro de 2024, uma força-tarefa retirou do canteiro de obras 163 trabalhadores chineses em condições análogas à escravidão, como detalhou a Agência Pública. Os resgatados estavam ligados à empreiteira Jinjiang, que teve o contrato suspenso pela BYD. Mais operários, de outra empreiteira, a Tecmonta, foram encontrados depois, e o MPT passou a falar em mais de 220 pessoas atingidas.
Em maio de 2025, o MPT ajuizou ação civil pública contra a BYD e as empreiteiras e pediu R$ 257 milhões por danos morais coletivos, além de indenizações individuais e verbas rescisórias, segundo a Repórter Brasil.
O caso terminou em acordo no fim de 2025. Pelo que o Bahia Notícias noticiou, o valor foi de R$ 40 milhões: R$ 20 milhões em danos morais individuais, pagos aos trabalhadores, e R$ 20 milhões em danos morais coletivos. As empreiteiras chinesas são as pagadoras, e a BYD responde de forma subsidiária e cobre o valor se elas não pagarem. O acordo não prevê admissão de culpa por nenhuma das partes e, na época da divulgação, dependia de homologação da Justiça do Trabalho. A reportagem não localizou confirmação posterior da homologação.
Esse histórico não prova nada sobre o acidente desta segunda-feira. São casos distintos, com natureza diferente: o de 2024 tratava de alojamento, jornadas e agressões, e este é uma queda de altura que ainda está sendo apurada. Mas explica por que o MPT mantém o olhar sobre a fábrica e por que cada nova ocorrência com trabalhadores terceirizados tende a ser examinada com lupa.
A fábrica em fase de expansão
O acidente acontece num momento de crescimento da operação. O complexo de Camaçari teve a primeira etapa inaugurada oficialmente em outubro de 2025 e, segundo o portal Movimento Econômico, a empresa preparava para o segundo semestre de 2026 novas estruturas de estamparia, soldagem e pintura, além da produção de mais um modelo, com a meta de aumentar a nacionalização.
Obras e montagem de novas linhas costumam concentrar justamente serviços em altura, em teto e em estrutura metálica, atividades que exigem plano de trabalho, linha de vida, treinamento específico e supervisão. A Norma Regulamentadora 35 (NR-35), do Ministério do Trabalho, trata do tema e exige, entre outros pontos, capacitação do trabalhador e análise de risco antes do serviço. Se esses itens foram cumpridos no caso de Huang é exatamente o que o MPT diz que vai verificar.
O que vem a seguir
O inquérito está no começo. O MPT vai expedir ofícios, pedir documentos à SRT-BA e notificar as empresas envolvidas a apresentar seus procedimentos de prevenção. A Polícia Civil segue com a apuração das circunstâncias da queda. Dependendo do que for encontrado, o MPT pode propor um termo de ajuste de conduta ou ajuizar ação, instrumentos que o órgão já usou no caso das empreiteiras em 2025.
A BYD diz que apura o ocorrido e apoia a família. Ainda não há informação pública sobre o nome da empresa prestadora, sobre o laudo da perícia nem sobre o destino do corpo. Quando houver, a matéria será atualizada.


