Ataque hacker Binance: o que se sabe e o que fazer com seu dinheiro
Maior corretora de criptomoedas do mundo teve US$ 6,3 bilhões roubados em cerca de 20 minutos, suspendeu saques e diz que o dinheiro de brasileiros está seguro. Entenda o que já foi apurado e quais são os riscos reais
30 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

O ataque hacker Binance de quinta-feira (29) já é o maior roubo de criptomoedas da história. Os criminosos levaram cerca de US$ 6,3 bilhões (R$ 34 bilhões) da maior corretora do setor, segundo o g1, e a empresa suspendeu os saques de criptomoedas enquanto revisa seus sistemas. Na sexta-feira (30), a Binance afirmou que o dinheiro de clientes brasileiros está protegido. A frase tranquiliza, mas não responde a tudo o que o investidor precisa saber.
Como o ataque aconteceu
A maior parte do roubo durou cerca de 20 minutos, por volta das 17h de quinta (horário de Brasília), de acordo com os registros da blockchain analisados por especialistas e relatados pelo g1. Depois do desvio, os criminosos moveram o dinheiro rapidamente para dificultar o bloqueio e o rastreamento.
A explicação da própria Binance mudou ao longo de 24 horas. Na noite de quinta, a corretora disse que a investigação preliminar apontava para o notebook de um engenheiro, o que teria permitido a um invasor acessar um contêiner de serviço e enviar ordens de saque não autorizadas, segundo a CNN Brasil. Depois, a empresa informou ter encontrado outros pontos de invasão, sem dar detalhes.
A empresa americana de análise de blockchain TRM Labs deu uma versão mais técnica. Para ela, os invasores comprometeram a “infraestrutura de assinatura” da Binance, o sistema que autoriza transferências. Com isso, conseguiram emitir instruções que esvaziaram as carteiras afetadas.
Mark Karpeles, ex-chefe da corretora Mt. Gox, disse à agência Reuters que os atacantes provavelmente chegaram às chaves privadas de pelo menos duas carteiras da Binance. A Mt. Gox encerrou as atividades há 12 anos, depois do roubo de US$ 500 milhões em bitcoin. Ele observou que a Binance parece ter dividido seus ativos em vários sistemas, de modo que um ataque atinja só parte deles. “Mesmo assim, um único ataque é uma grande perda”, afirmou, conforme o g1.
Quem são os suspeitos
A TRM Labs diz ter “alta confiança” de que o ataque foi obra do TraderTraitor, grupo de hackers ligado à Coreia do Norte. A empresa cita “informações robustas dentro e fora da blockchain” e lembra que várias características do ataque coincidem com roubos anteriores atribuídos a Pyongyang. A Chainalysis também aponta para o país. A Pangolin Intelligence, outra empresa de rastreamento, chegou à mesma conclusão.
A Binance, porém, afirma que sua investigação ainda não identificou os responsáveis. O presidente americano Donald Trump, perguntado por jornalistas na Casa Branca, respondeu apenas: “Estamos investigando”. A Coreia do Norte nega rotineiramente qualquer envolvimento em ataques desse tipo, e a missão do país em Genebra e a embaixada na China não responderam aos pedidos de comentário da imprensa.
Há um precedente que pesa na atribuição. O recorde anterior, de US$ 1,5 bilhão, foi o roubo da corretora Bybit, que o FBI atribuiu a hackers norte-coreanos. A TRM afirma que a violação na Binance tem características parecidas. A Chainalysis disse ainda que fundos roubados num ataque à Bitget no mês passado estavam sendo misturados aos recursos da Binance.
O que a Binance promete
A corretora afirma que cobrirá todas as perdas com recursos próprios e com um fundo emergencial de ativos. O co-CEO Richard Teng repetiu a promessa. Segundo o site da empresa, esse fundo tem uma reserva de US$ 1 bilhão em bitcoins, valor bem abaixo do que foi levado.
Parte do dinheiro já foi localizada. Cerca de US$ 3 bilhões (R$ 16,2 bilhões) foram identificados, e empresas do setor conseguiram congelá-los. Isso só é possível porque os emissores das principais stablecoins, como o USDT da Tether e o USDC da Circle, têm a capacidade de bloquear ativos remotamente, explica a CNN Brasil. Bloqueado, porém, não quer dizer recuperado.
A Binance trabalha com o FBI e com o Serviço Secreto dos EUA. A empresa informou que está dentro do cronograma para restabelecer os saques em até 45 horas. Os depósitos não foram afetados e os demais serviços seguem funcionando.
E os brasileiros?
Em comunicado, a Binance disse que os ativos de clientes no Brasil ficam em carteiras frias (cold wallets), cujas chaves não têm conexão com a internet. A corretora também lembra que segue as regras do Banco Central, em vigor desde fevereiro, que exigem separar o dinheiro dos clientes do caixa da própria empresa.
Nenhuma das duas barreiras elimina o risco. O g1 destaca que a regra do BC não impede ataques nem garante ressarcimento. Criptomoedas, ao contrário de depósitos bancários e de alguns investimentos de renda fixa, não têm a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
André Matos, CEO da MA7 Capital, resume ao g1 o risco imediato: ficar sem acesso ao dinheiro por um tempo, e não perdê-lo para sempre. Ele faz um alerta que muita gente ignora: “A promessa cobre os ativos roubados, não a queda de preço”. E acrescenta que a capacidade da Binance de arcar com todas as perdas ainda não foi comprovada de forma independente.
O doutor em Inteligência Artificial Celso Camilo, da UFG, acrescenta que quem guarda cripto em outras plataformas não está necessariamente exposto ao ataque, mas pode sentir a queda de preços.
O que o mercado fez
A reação foi rápida. Por volta das 14h24 de sexta, o bitcoin e o ether caíam mais de 4%, a US$ 77.274 (cerca de R$ 417 mil) e US$ 2.245, respectivamente. O BNB, moeda ligada à Binance, recuava 6%. Nos Estados Unidos, as ações da Coinbase perdiam mais de 13% e as da Strategy, empresa conhecida por acumular bitcoin, mais de 8%.
Na B3, os fundos de criptomoedas também caíram. Às 12h40, o HASH11, que acompanha uma cesta de moedas digitais, recuava 2,64%, e o QBTC11, atrelado ao bitcoin, 3,94%. A CNN Brasil nota que o valor total de mercado das stablecoins diminuiu, sinal de que investidores estavam tirando dinheiro do setor.
O roubo se soma a um ano ruim em segurança. Segundo a TRM Labs, invasores levaram US$ 2,9 bilhões em criptomoedas em quase 150 incidentes no ano passado. Só o ataque desta semana equivale a mais que o dobro desse total.
O que fazer agora
O raciocínio de Matos serve de roteiro prático. O primeiro passo é saber onde estão suas moedas. Se estão na sua conta da Binance, quem tem a custódia é a corretora, e você está exposto. Se estão numa carteira própria, da qual só você tem as chaves, o ataque não as atinge diretamente, embora o preço possa cair.
Para quem tem dinheiro na Binance, o especialista recomenda:
- Não vender na baixa nem tentar sacar a qualquer custo, porque isso pode transformar um problema temporário em prejuízo definitivo.
- Ativar a autenticação em duas etapas.
- Guardar os comprovantes dos investimentos.
- Desconfiar de mensagens que prometam liberar saques em troca de senhas ou dados pessoais.
Esse último ponto merece atenção redobrada. Golpistas costumam aproveitar momentos de pânico, e a suspensão dos saques cria o cenário ideal para falsos “suportes” e links de recuperação. Informação sobre a retomada dos saques só vale se vier dos canais oficiais da corretora.
Para o longo prazo, Matos sugere não concentrar todos os investimentos numa única corretora e, para quem pretende guardar cripto por muito tempo, considerar uma carteira própria, de preferência física, como a da foto desta matéria. Nesse caso, a atenção toda vai para as palavras de recuperação: se forem perdidas ou caírem na mão de criminosos, o investidor pode ficar sem as moedas.
Próximos passos
A Binance prevê reabrir os saques em até 45 horas. A investigação com o FBI e o Serviço Secreto segue aberta, e a empresa ainda não detalhou todos os pontos de invasão que diz ter encontrado. A atribuição à Coreia do Norte, por ora, vem de empresas privadas de rastreamento, não de uma conclusão oficial das autoridades americanas.


