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Excesso de treino altera dopamina no cérebro, aponta estudo

Pesquisadores da USP e da Unicamp viram, em camundongos, dopamina alta no hipocampo mesmo em repouso depois de semanas de treino pesado. Serotonina, a suspeita clássica da fadiga, quase não mudou

Redação Saúdeassinatura da editoria

30 de outubro de 2026 · 5 min de leitura

Mulher de fones de ouvido em uma esteira em academia iluminada, com outras esteiras e aparelhos de musculação ao fundo (Foto: Shixart1985/Wikimedia Commons, CC BY 2.0; imagem ilustrativa de arquivo, não é do estudo)

Semanas de treino pesado sem descanso suficiente mudaram a química do cérebro de camundongos, e o sinal apareceu onde os cientistas não esperavam. Um estudo de pesquisadores brasileiros, publicado na revista “Neuroscience”, encontrou dopamina elevada no hipocampo dos animais mesmo durante o período de repouso. A região ligada à memória e às emoções não faz parte dos circuitos diretos do movimento. A pesquisa, conduzida em São Paulo, é uma parceria entre a USP e a Unicamp e teve Alisson Luiz da Rocha e João Pedro Floriano como primeiros autores, segundo a CNN Brasil.

O trabalho ajuda a investigar a chamada síndrome de overtraining, associada ao excesso de treinamento e caracterizada por perda de desempenho, fadiga crônica, dores musculares e aumento do risco de lesões. Mas é um estudo com animais. Os próprios autores deixam claro que ele não prova que o mesmo mecanismo ocorra em pessoas.

Como o experimento foi feito

Os pesquisadores usaram camundongos machos de 8 semanas e os dividiram em dois protocolos. No primeiro, os animais correram em uma esteira até a exaustão, num teste de esforço agudo. No segundo, passaram por oito semanas de treino com cargas crescentes. Na última semana, chegaram a fazer duas sessões por dia, separadas por apenas quatro horas de recuperação, rotina que simula a de atletas de alto rendimento com overtraining.

Segundo Rocha, primeiro autor e pesquisador de pós-doutorado na Universidade de Michigan, os animais ganharam desempenho nas primeiras quatro semanas. “Porém, nas quatro semanas seguintes, em que houve um aumento da carga de treino em relação à recuperação, eles perderam o ganho de desempenho que haviam conquistado”, disse ele ao g1. Depois, a equipe mediu no hipocampo os níveis de dopamina, de serotonina e de proteínas envolvidas na produção e no transporte desses neurotransmissores.

O que mudou no cérebro

No grupo do esforço agudo, a dopamina subiu logo depois da corrida. Segundo a CNN Brasil, ao mesmo tempo houve queda na tirosina hidroxilase, a principal enzima que fabrica a dopamina, o que sugere que o cérebro perdeu momentaneamente a capacidade de produzir mais.

Nos animais do treino prolongado, o quadro foi outro. Os níveis de dopamina e de tirosina hidroxilase continuavam altos 48 horas depois do teste de desempenho, justamente na fase em que o organismo deveria estar descansando. Para o g1, a diferença indica que a resposta química depois de uma sessão exaustiva não é igual à de semanas de sobrecarga.

Os autores levantam duas hipóteses. Na primeira, o sistema que produz dopamina passou a funcionar num patamar mais alto, moldado pelo novo padrão de treinos intensos. Na segunda, o treino excessivo eleva substâncias inflamatórias que interferem nesse sistema. O g1 resume o achado assim: não é só mais dopamina, é dopamina no momento errado.

A serotonina ficou de fora

A teoria clássica da fadiga central atribui o esgotamento físico a um aumento da serotonina no cérebro, ou da diferença entre serotonina e dopamina. O resultado do estudo vai contra essa ideia. “Esperávamos encontrar mudanças na serotonina, que há décadas é apontada como a principal responsável pela fadiga central, mas ela praticamente não mudou”, afirmou Rocha ao g1.

A CNN Brasil informa que os níveis de serotonina no hipocampo não tiveram alteração significativa nem no exercício exaustivo nem no excessivo. Para os pesquisadores, o resultado reforça a necessidade de procurar outros mecanismos biológicos, em vez de atribuir a fadiga a um único neurotransmissor. Eles também ressaltam que a dopamina não é prejudicial por si só, porque cumpre várias funções no organismo. O problema estaria na regulação, quando fica alta em hora de descanso.

Por que isso pode afetar o sono

A dopamina ajuda a manter o cérebro em estado de alerta. Por isso, o grupo supõe que níveis altos durante o repouso possam atrapalhar o sono. “Se ela está alta quando o organismo deveria descansar, uma consequência possível é o sono piorar. E dormir mal prejudica a recuperação, o humor e o desempenho”, disse Rocha ao g1.

A hipótese descreve um ciclo que os pesquisadores dizem observar também em pessoas. “A pessoa dorme mal, se recupera mal, rende menos e, muitas vezes, acaba treinando ainda mais para tentar reverter a queda de desempenho”, afirmou. O estudo, porém, não avaliou diretamente sono, ansiedade ou fadiga nos animais. Segundo o g1, ainda não dá para afirmar que a dopamina elevada seja responsável por insônia, ansiedade ou cansaço persistente em atletas.

Os limites da pesquisa

A CNN Brasil lista limitações. A dopamina foi medida no tecido cerebral como um todo, o que não mostra a velocidade com que ela estava sendo usada nas conexões entre neurônios. Só foram testados camundongos machos, então os resultados não valem automaticamente para fêmeas. A ligação entre inflamação cerebral e comportamento ansioso dos animais veio de análise de banco de dados e ainda precisa de testes diretos em laboratório.

O g1 acrescenta que o overtraining envolve sintomas relatados pela própria pessoa, algo que não se diagnostica do mesmo jeito em modelo animal. O estudo também não define um intervalo de descanso ideal para evitar alterações parecidas em quem treina.

O que vem a seguir

Nos animais, o próximo passo é aprofundar os mecanismos pelos quais o excesso de treino afeta o cérebro e buscar sinais no sangue que sirvam para diagnosticar a síndrome ou preveni-la. Em humanos, Rocha descreve um caminho indireto: acompanhar atletas em treinamento com testes de desempenho, questionários de humor, monitoramento do sono e exames de sangue.

Enquanto isso, o alerta para quem treina pesado vem de outra frente da própria CNN Brasil. Uma reportagem sobre dietas restritivas e treino intenso cita o endocrinologista Rodrigo Gomes de Souza, que diz que gastar mais energia do que se consome por muito tempo faz o organismo reduzir o ritmo do metabolismo e compromete o sistema hormonal. Um dos sinais de alerta citados é o cansaço persistente, que não melhora com o descanso. Nesses casos, a recomendação é reduzir a intensidade dos treinos, ajustar nutrientes e carboidratos e procurar um especialista para checar as taxas hormonais e metabólicas.

Rocha ressalta que o exercício continua sendo um dos melhores estímulos para o cérebro. O que se entende cada vez melhor, diz ele, é que o excesso, sem recuperação, pode virar um problema.

Fontes

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