Tesamorelina: peptídeo aprovado nos EUA para gordura visceral não tem aval no Brasil
Vendida nos Estados Unidos como Egrifta para pessoas com HIV e lipodistrofia, a tesamorelina é um dos poucos peptídeos de hormônio do crescimento com aprovação do FDA, mas não é um emagrecedor e nunca foi liberada pela Europa
8 de outubro de 2026 · 5 min de leitura

Quando se fala em peptídeos que estimulam o hormônio do crescimento, quase tudo o que circula nas redes é mercado informal: CJC-1295, ipamorelina, sermorelina. A tesamorelina é a exceção que ajuda a entender a diferença entre um peptídeo que é de fato medicamento e um peptídeo de “pesquisa”. Ela tem aprovação do FDA, a agência americana, há mais de uma década, mas para um uso bem específico, e continua sem registro no Brasil.
O que é a tesamorelina
A tesamorelina é um análogo do hormônio liberador do hormônio do crescimento (GHRH), aplicado por injeção subcutânea diária, segundo a cobertura da aprovação pelo FDA. Ela atua no mesmo eixo hormonal de peptídeos como a sermorelina e o CJC-1295: em vez de injetar hormônio do crescimento pronto, estimula a hipófise a produzi-lo.
O que a ciência mostra: benefício comprovado, para um público restrito
Diferente dos peptídeos do mercado informal, aqui existem ensaios clínicos em humanos. O FDA aprovou o Egrifta em novembro de 2010 como o primeiro tratamento para reduzir o excesso de gordura abdominal visceral em pessoas vivendo com HIV e lipodistrofia, de acordo com a imprensa especializada. A lipodistrofia é uma complicação em que o corpo redistribui a gordura, acumulando-a em torno dos órgãos do abdômen, e era comum em pacientes em uso de antirretrovirais mais antigos.
A aprovação se baseou em dois estudos controlados por placebo, com acompanhamento de 26 semanas, nos quais a redução da gordura visceral ficou em torno de 15% a 17%, medida por tomografia, segundo uma revisão da literatura. O efeito, porém, depende de uso contínuo: ao interromper o tratamento, a gordura visceral tende a voltar.
Esse é o ponto que mais separa a tesamorelina do hype. O benefício está comprovado em humanos, mas para uma população específica e com resultados modestos. Ela não é indicada para tratar obesidade nem para emagrecer, e a gordura subcutânea praticamente não responde ao tratamento.
Riscos e contraindicações
Mesmo sendo um medicamento aprovado, a tesamorelina tem efeitos colaterais relevantes. Os mais comuns nos estudos foram dor articular, reações no local da injeção, dor abdominal, inchaço e dor muscular, e houve piora do controle da glicemia com mais frequência do que no grupo placebo; em um dos estudos, 17,3% dos pacientes tratados tiveram três ou mais aumentos de glicemia, contra 7,3% no grupo placebo. Há contraindicações como gravidez, malignidade ativa e comprometimento da hipófise, e por isso o tratamento exige acompanhamento médico.
Esse perfil de risco, conhecido porque foi medido em ensaios, é justamente o que falta aos peptídeos vendidos sem registro. Também por isso a tesamorelina não deve ser vista como “versão segura” para uso estético ou de ganho de massa: a aprovação vale para uma indicação, para uma população e sob supervisão.
Por que a Europa disse não
Nem toda agência concordou com o FDA. Na Europa, o pedido de autorização do Egrifta não prosperou: o comitê europeu entendeu que o pedido não era aprovável diante de objeções importantes, e a empresa retirou a solicitação em 2012. O episódio mostra que, mesmo entre medicamentos com ensaios clínicos, a avaliação de custo e benefício pode variar entre reguladores.
E no Brasil?
A tesamorelina não tem registro aprovado pela Anvisa nas informações públicas que consegui verificar. Em 2016, a fabricante e a parceira Sanofi comunicaram que retiraram o pedido de registro da apresentação de 2 mg no Brasil, após questionamentos da agência, e na ocasião avaliavam os passos para outra apresentação. Não localizei confirmação posterior de aprovação, e quem quiser checar o estado atual pode consultar a base de medicamentos da Anvisa.
Esse vazio regulatório é o que abre espaço para o comércio paralelo. A Anvisa afirma que produtos apresentados como peptídeos não estão regularizados em nenhuma categoria e são ilegais para qualquer uso em saúde, inclusive estético. Frascos de origem desconhecida, mesmo quando trazem o nome de um medicamento aprovado, podem ter dosagem incorreta, contaminação ou ser falsificados, risco apontado por dermatologistas ouvidos pela imprensa.
Por que o interesse fora do HIV
Parte da curiosidade em torno da tesamorelina vem de clínicas de longevidade e de comunidades de biohacking, que enxergam nela uma forma de reduzir gordura abdominal e elevar o hormônio do crescimento sem recorrer ao hormônio sintético. O raciocínio parece lógico, já que o mecanismo é o mesmo dos outros peptídeos do eixo do hormônio do crescimento, mas os ensaios que sustentam a aprovação foram feitos em pessoas com HIV e lipodistrofia, e não em quem busca estética ou desempenho. Os resultados, portanto, não podem ser transpostos automaticamente para outro público, e o aumento de glicemia observado nos estudos é um alerta a mais para quem não tem acompanhamento médico.
Isso vale também para a ideia de “estender” o uso por conta própria: como a gordura visceral volta quando o tratamento é interrompido, qualquer benefício depende de manutenção contínua, o que multiplica a exposição aos efeitos colaterais.
Como ler essa história
A tesamorelina é um bom exemplo do que significa ser medicamento: indicação definida, benefício medido, efeitos colaterais conhecidos e acompanhamento médico. Ela mostra que peptídeos que estimulam o hormônio do crescimento podem, sim, ter utilidade clínica, mas também que o resultado é modesto e restrito. Para ver onde ela se encaixa no mapa completo, do que é aprovado ao que circula sem registro, o Guia de Peptídeos do CityTudo reúne o panorama, e o outro extremo, o dos peptídeos emagrecedores com ensaios robustos, está em outra matéria da série.
O uso de qualquer medicamento exige prescrição e acompanhamento médico. O CityTudo é um veículo jornalístico, sem vínculo com fabricantes ou vendedores dos produtos citados.


