CityTudo

Publicidade

Anvisa proíbe peptídeos vendidos como "para pesquisa": o que muda para retatrutida, BPC-157 e NAD+

Resolução publicada em 6 de outubro manda apreender canetas de tirzepatida e retatrutida sem registro e peptídeos como BPC-157, TB-500, GHK-Cu e NAD+, vendidos em sites com o rótulo de uso em pesquisa, mas com indícios de uso humano

Redação Saúdeassinatura da editoria

12 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

Duas canetas injetoras sobre fundo escuro, do tipo usado para aplicar medicamentos sob a pele, com o rótulo desfocado (Foto: PerPlex/Wikimedia Commons, domínio público)

A Anvisa decidiu agir contra um dos atalhos mais usados no mercado informal de peptídeos: o rótulo “somente para pesquisa”. Em resolução publicada no Diário Oficial da União em 6 de outubro de 2026, a agência determinou a apreensão e proibiu o armazenamento, a venda, a distribuição, a fabricação, a propaganda, o transporte e o uso de medicamentos e peptídeos sem registro, notificação ou cadastro. Na prática, a Anvisa proíbe peptídeos que circulavam em sites brasileiros apresentados como material de laboratório, mas que a própria agência identificou como produtos com indício de uso humano.

O que a resolução proíbe

A lista de produtos citados inclui as canetas Tirzegen 60 mg (tirzepatida) e Retagen 40 mg (retatrutida), ambas da Oxygen Pharm, além de BPC157 & TB500 40 mg e Retatrutide 40 mg, da Alluvi Healthcare, NAD+ 1000 mg, da Synedica Labs, e Glow GHK-CU 70 mg. Segundo a cobertura da imprensa, o veto vale para toda a linha das marcas Alluvi Healthcare, Synedica Labs e Oxygen Pharm, e não apenas para os frascos listados.

Os produtos eram oferecidos em sites como o Peptídeos Pro e o Peptídeos do Brasil. De acordo com a agência, eles eram vendidos como “para pesquisa”, mas havia indícios de potencial uso humano. A determinação alcança pessoas físicas, empresas e também veículos de comunicação que divulguem os produtos. A mesma publicação trouxe outras medidas sem relação com peptídeos, como a suspensão de todos os lotes de insulina glargina de uma distribuidora que operava sem autorização.

Não é a primeira vez. Em janeiro de 2026, a agência já havia vetado a tirzepatida das marcas Synedica e TG e a retatrutida de todas as marcas, as chamadas “canetas emagrecedoras do Paraguai”. Em setembro, a proibição da caneta T36 seguiu o mesmo caminho. A diferença agora é o alcance: a resolução mira também peptídeos de recuperação, estética e longevidade, e não só os de emagrecimento.

O que a ciência já mostrou de benefício

Ao contrário do que o rótulo de “pesquisa” sugere, esses compostos têm graus de evidência muito diferentes entre si, e vale separar cada caso.

A tirzepatida é a mais sólida: é um medicamento aprovado, e no estudo SURMOUNT-1, publicado no New England Journal of Medicine, a redução média de peso chegou a 20,9% na dose de 15 mg, contra 3,1% no placebo, em 72 semanas. No Brasil, a única tirzepatida aprovada é o Mounjaro, o que torna qualquer outra caneta com esse nome uma versão sem garantia de origem.

A retatrutida está um passo atrás. O estudo de fase 3 TRIUMPH-1 mostrou perda de peso de até 28,3% em 80 semanas na dose mais alta, resultado que a coloca entre os candidatos mais potentes da categoria. Mas ela segue como medicamento experimental: a Eli Lilly ainda planeja enviar o pedido à FDA no início de 2027. Os dados do estudo, portanto, valem para o produto da fabricante, testado sob supervisão, e não para frascos de origem desconhecida.

Já o BPC-157 e o TB-500 têm um tipo de evidência bem mais frágil. Há estudos em animais sugerindo cicatrização mais rápida de tendões e da mucosa intestinal, como detalhado na matéria sobre o BPC-157 e na do TB-500, mas esse benefício é pré-clínico, vindo sobretudo de ratos e camundongos, e nunca foi confirmado em ensaios clínicos de grande porte em humanos. O mesmo vale para o GHK-Cu, que mostra efeitos sobre colágeno e pele em laboratório e em estudos pequenos, conforme explicado na matéria sobre o GHK-Cu. O NAD+, por sua vez, não é exatamente um peptídeo, e sim uma coenzima presente em todas as células; a lista da resolução o inclui porque era vendido no mesmo circuito, sem registro.

Por que o rótulo “para pesquisa” não protege ninguém

O argumento de que o produto é “somente para pesquisa” ou “não é para consumo humano” é um velho conhecido dos reguladores. Nos Estados Unidos, a FDA alertou empresas que vendem ilegalmente produtos com semaglutida, tirzepatida ou retatrutida falsamente rotulados como para pesquisa, vendidos direto ao consumidor com instruções de uso. Em agosto, a Eli Lilly abriu seis processos contra empresas americanas que, segundo a farmacêutica, usam o rótulo de pesquisa para vender retatrutida a pessoas. A empresa afirma ter denunciado mais de 200 pessoas e entidades às autoridades e mais de 14 mil anúncios online.

O raciocínio é o mesmo no Brasil: se o produto é divulgado com apelo de emagrecimento, recuperação muscular ou rejuvenescimento, a finalidade é humana, e sem registro a Anvisa não tem como atestar a qualidade do que está dentro do frasco.

Os riscos reais de usar peptídeos sem registro

O primeiro risco é a falta de controle de qualidade. Um produto injetável sem registro não passa por inspeção de fábrica, teste de pureza, esterilidade ou conferência de dose. Médicas ouvidas em reportagem sobre o tema alertam que, entre os problemas possíveis, estão contaminação, reação inflamatória e infecção. Há ainda o risco de falsificação, em que o frasco traz uma substância diferente da anunciada.

O segundo risco é o efeito do próprio princípio ativo sem acompanhamento. Mesmo os medicamentos aprovados dessa classe causam efeitos gastrointestinais frequentes, como náusea e diarreia, e exigem avaliação médica. No caso da retatrutida, o TRIUMPH-1 registrou náusea em até 42,4% dos participantes e interrupção do tratamento em até 11,3%, conforme os números já publicados na matéria sobre a retatrutida. Sem médico, sem dose confirmada e sem saber o que há no frasco, esse perfil de segurança deixa de valer.

O terceiro risco é jurídico e esportivo: quem vende, divulga ou guarda esses produtos passa a descumprir uma determinação sanitária, e atletas ainda enfrentam o problema do antidoping, como explicado no caso do TB-500.

O que fazer se você tem um desses produtos

Como o produto foi proibido para qualquer uso, a orientação prudente é não usá-lo e procurar um profissional de saúde. Quem comprou um frasco listado na resolução não deve continuar aplicando, e quem sentir qualquer reação deve buscar atendimento médico e informar o que foi usado. Denúncias de venda podem ser feitas pelos canais da própria agência.

Peptídeos regulares existem, e é isso que os diferencia

A resolução não proíbe peptídeos em geral. Semaglutida, liraglutida e tirzepatida aprovadas, com registro, seguem legais e disponíveis com prescrição, e o Brasil já conta inclusive com genéricos de semaglutida aprovados. O que a agência veta é o produto sem registro, notificação ou cadastro, sem rastreabilidade e sem comprovação de que contém o que diz conter.

Para entender onde cada peptídeo se encaixa, entre aprovado, em estudo ou vendido sem aprovação, o Guia de Peptídeos reúne a situação regulatória e as evidências disponíveis de cada um, e o explicador sobre peptídeos emagrecedores mostra como esses hormônios atuam no corpo. O ponto central da decisão de outubro é simples: um frasco chamado de “pesquisa” que chega à porta do consumidor com promessa de resultado não é pesquisa, e a Anvisa agora trata assim.

Guia permanenteTudo sobre INSS: calendário, valores e como consultar

Fontes

Leia também