Licenças médicas por ansiedade sobem 92% em dois anos: o que isso diz sobre o mercado de trabalho
Entre 2023 e 2025, afastamentos por ansiedade e depressão cresceram de forma expressiva no Brasil, pressionando empresas a repensar a saúde mental no trabalho
Marina Kesslerdo CityTudo17 de agosto de 2026 · 3 min de leitura

Um dos indicadores mais discutidos sobre o mercado de trabalho brasileiro em 2026 não é econômico, mas de saúde. Segundo levantamento da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT) com base em dados oficiais do INSS, o total de benefícios concedidos por transtornos mentais saltou de 219.850 em 2023 para 393.670 em 2025, uma alta de 79% em dois anos. Entre os diagnósticos, os transtornos ansiosos (classificados como CID F41) tiveram o crescimento mais expressivo: passaram de 81.874 casos em 2023 para 157.235 em 2025, um aumento de 92%, ou seja, praticamente dobraram no período. Esse salto colocou o tema no centro do debate sobre condições de trabalho e produtividade no país.
Um problema que já afeta a produtividade
A mesma apuração da ANAMT mostra que os casos de síndrome de burnout triplicaram no período, saindo de 1.760 registros em 2023 para 6.985 em 2025, o crescimento percentual mais acentuado entre todos os diagnósticos relacionados à saúde mental analisados. Para especialistas em gestão de pessoas, esse conjunto de dados deixou de ser uma questão apenas de saúde individual para se tornar um problema direto de produtividade e retenção de talentos, forçando empresas a revisar políticas internas de bem-estar que antes eram tratadas como benefício secundário. O próprio custo previdenciário desses afastamentos ultrapassou R$ 954 milhões somente em 2025, segundo o levantamento, um valor que tende a pressionar ainda mais o debate sobre prevenção nas empresas.
O que está pressionando o trabalhador
Entre os fatores mais citados por profissionais de saúde ocupacional estão a cultura de disponibilidade constante fora do horário de trabalho, a insegurança gerada por reestruturações frequentes em diferentes setores da economia, e o acúmulo de funções em equipes reduzidas, um padrão que se intensificou nos últimos anos em diversas empresas. O crescimento simultâneo de ansiedade, depressão e burnout sugere que não se trata de um fenômeno isolado, mas de um padrão ligado à intensificação do ritmo de trabalho e à cobrança por metas em um mercado ainda marcado pela incerteza econômica.
Como empresas estão respondendo
Diante do cenário, um número crescente de empresas passou a investir em programas de saúde mental, com destaque para:
- Ampliação do acesso a terapia como benefício corporativo
- Treinamento de lideranças para identificar sinais de esgotamento nas equipes
- Políticas mais claras de desconexão fora do expediente
- Revisão de metas e prazos considerados incompatíveis com a capacidade real das equipes
Ainda assim, a velocidade de crescimento dos afastamentos indica que essas iniciativas, isoladamente, não têm sido suficientes para reverter a tendência registrada pelo INSS nos últimos dois anos.
O papel da legislação trabalhista
O tema também ganhou espaço no debate legislativo, com discussões sobre a inclusão mais explícita de transtornos mentais relacionados ao trabalho no rol de doenças ocupacionais reconhecidas, o que teria impacto direto em benefícios previdenciários e na responsabilização de empresas por ambientes de trabalho considerados nocivos à saúde mental. A atualização da Norma Regulamentadora 1 (NR-1), que passou a exigir das empresas a identificação e o gerenciamento de riscos psicossociais no ambiente de trabalho, é apontada por especialistas em saúde ocupacional como um dos fatores que ajudam a explicar por que mais casos estão sendo formalmente diagnosticados e registrados junto ao INSS.
Um desafio que exige mudança estrutural
Para especialistas da área, reverter a tendência de crescimento dos afastamentos exige mudanças que vão além de benefícios pontuais como aplicativos de meditação ou palestras isoladas sobre bem-estar. A raiz do problema, segundo esses profissionais, está na própria organização do trabalho e nas metas impostas às equipes, um debate que deve seguir central nas relações trabalhistas nos próximos anos, especialmente à medida que novos dados do INSS forem consolidados e comparados aos números já registrados entre 2023 e 2025.


