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Vasco fecha acordo com a 777 Partners e destrava venda da SAF

Em manifestação conjunta à Justiça, fundo americano declarou que não vai mais se opor à venda de 90% da "Nova SAF" vascaína, encerrando disputa que travava o clube desde 2024

Bruno AndradeBruno Andradedo CityTudo

3 de setembro de 2026 · 6 min de leitura

Vista aérea do gramado e das arquibancadas do Estádio de São Januário, em São Cristóvão, no Rio de Janeiro, em dia claro

O Vasco da Gama e a 777 Partners chegaram a um acordo que pode encerrar, de vez, dois anos de disputa judicial em torno do controle da SAF vascaína. Segundo apuração do ge, a 777 Carioca LLC declarou à Justiça, nesta quarta-feira (2), que não se opõe ao processo de venda de 90% da “Nova SAF” do clube, em manifestação apresentada em conjunto pelo Club de Regatas Vasco da Gama, pela Vasco SAF e pela própria 777 Carioca LLC no processo de recuperação judicial.

O que diz o acordo

De acordo com o documento protocolado nos autos, as partes chegaram a uma composição no âmbito da Câmara FGV de Mediação e Arbitragem, resolvendo de forma consensual as controvérsias que discutiam desde 2024. O texto da manifestação, também obtido pelo ge, é direto: “1. As partes informam que chegaram a um acordo no âmbito do procedimento arbitral (Procedimento Arbitral n° 10/2024, Câmara FGV de Mediação e Arbitragem), tendo sido solucionadas, de forma consensual, as controvérsias existentes entre as partes”.

No segundo ponto do documento, a 777 Carioca LLC detalha exatamente o que deixa de contestar: os termos do Plano de Recuperação Judicial; a criação de uma nova sociedade anônima do futebol via transferência dos ativos esportivos da atual Vasco SAF, batizada de “Nova SAF”; a constituição de uma Unidade Produtiva Isolada (UPI Equity) para a venda judicial de 90% das ações dessa Nova SAF; a realização do processo competitivo de venda; e a transferência dessas ações ao vencedor do leilão. Em razão do consenso, a petição que a 777 Carioca LLC havia protocolado em 21 de agosto fica superada, e o fundo se compromete a desistir dos incidentes e recursos relacionados à recuperação judicial, renunciando às pretensões neles contidas.

Uma briga que já durava dois anos

O impasse entre Vasco e 777 Partners não é novo. Em julho de 2024, o clube acionou a arbitragem da Câmara FGV buscando rescindir o contrato de investimento e o acordo de acionistas firmado com o fundo americano em 2022, alegando “descumprimento, gestão temerária e atos abusivos” por parte da 777, citando entre os exemplos um empréstimo de US$ 5 milhões concedido a uma empresa ligada ao próprio fundo. Do outro lado, a 777 Partners rebatia as acusações e buscava retomar o controle da SAF nos termos do contrato original, citando falta de investimento no centro de treinamento e ausência de garantias de um pagamento previsto para setembro de 2024. As partes chegaram a suspender a ação na Justiça e a arbitragem por 90 dias em uma tentativa de composição amigável, sem sucesso imediato, com a A-CAP, seguradora americana que assumiu o controle da 777, entrando no meio da negociação.

Foi esse imbróglio, arrastado por mais de dois anos, que travava qualquer avanço concreto na venda da SAF vascaína, mesmo com a Justiça já tendo autorizado, em 28 de agosto, o edital do processo competitivo pela SAF, com a oferta do empresário Marcos Lamacchia, de R$ 500 milhões em aportes ao futebol, servindo como referência mínima para a disputa. Com a 777 fora do caminho, o principal obstáculo jurídico que ainda pairava sobre o leilão deixa de existir.

Pedrinho já pressionava a Justiça

A resolução do imbróglio chega um dia depois de o presidente do Vasco, Pedrinho, pedir publicamente que a Justiça acelerasse a liberação do leilão. Antes de embarcar para Salvador, onde o time enfrentou o Vitória pela Copa do Brasil, o dirigente afirmou: “Se aparecer um investidor que empate a proposta que já tem na mesa e assim vai ser feito, vai ser um investidor, seja ele qual for, obviamente passando por todo um processo de auditoria, um processo de legitimidade […]. Então, quanto mais rápido o leilão acontecer, melhor para a instituição”.

Pedrinho também usou uma analogia para defender a urgência de novos aportes: “A analogia que quero fazer é: um supermercado entrou em recuperação judicial. Ele pega um empréstimo para pagar funcionários, para pagar a recuperação judicial e aí ele não pode pagar para comprar produtos? […] Os meus produtos são os jogadores. […] Eu não sou irresponsável por comprar um atleta, eu sou irresponsável se não pago a RJ”. Segundo ele, o plano de recuperação judicial foi aprovado por 97,7% dos credores e homologado pela Justiça, e os empréstimos previstos fazem parte desse plano, e não um sinal de desorganização financeira, como alegam críticos.

O pano de fundo: uma corrida contra o relógio financeiro

O acordo com a 777 acontece em meio a uma semana de aperto financeiro real para o clube carioca. Na sexta-feira (28), o Vasco descumpriu o prazo para depositar a primeira parcela de um acordo homologado na Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD), órgão da CBF, que soma mais de R$ 110 milhões em dívidas com credores distribuídas em três planos coletivos. Pelo acordo, o clube precisa pagar R$ 15 milhões por ano aos credores e destinar 10% da receita bruta de premiações de competições da CBF e da Conmebol à quitação da dívida, com valores corrigidos anualmente pelo IPCA. A decisão da CNRD é taxativa quanto à penalidade em caso de novo atraso: “Caso o VASCO SAF não prove o cumprimento da obrigação no prazo acima estabelecido […] por unanimidade, o painel julgador autoriza a relatoria a, monocraticamente, aplicar a sanção de proibição de registro de novos atletas ao VASCO SAF”, a chamada punição de transfer ban.

Diante do risco, o clube recorreu a um empréstimo de cerca de R$ 5 milhões junto à Almirante Participações, empresa do próprio Marcos Lamacchia, para quitar a parcela em atraso na segunda-feira (31) e afastar a punição da FIFA, o mesmo empresário cuja proposta hoje serve de referência mínima no leilão da SAF. A SAF vascaína também aguarda a liberação de um empréstimo DIP de R$ 150 milhões avaliado pela Justiça, do qual o clube alega precisar de R$ 83 milhões só para honrar compromissos até o fim de agosto, em meio a um agravo movido contra a decisão que condicionou a análise de novos endividamentos acima de R$ 5,9 milhões.

Próximos passos

Com a 777 Partners formalmente fora do caminho, a expectativa no clube é que a Justiça avance mais rápido na liberação efetiva do processo competitivo pela Nova SAF, permitindo que outros investidores interessados apresentem propostas concorrentes à de Lamacchia, hoje a única sobre a mesa. A Administração Judicial, o Watchdog e o Gatekeeper do processo pediram prorrogação, até sexta-feira (4), do prazo para apresentar à Justiça uma manifestação conjunta sobre riscos, soluções e alternativas para a operação de venda, etapa que deve preceder a abertura definitiva do leilão. Enquanto isso, o Vasco segue tentando equilibrar dois relógios ao mesmo tempo: o da Justiça, que decide o futuro societário do clube, e o dos credores, que não dão trégua às finanças da SAF em plena disputa contra o rebaixamento no Brasileirão.

Fontes

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