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Influenciador de bet perdeu a moral: pesquisa, processo e as novas regras que apertam o cerco em 2026

Metade dos brasileiros vê com maus olhos quem anuncia aposta, a Fazenda mandou influenciador checar se a bet é autorizada e a CVM ainda deve a regra dos finfluencers

Redação Entretenimentoassinatura da editoria

17 de agosto de 2026 · Atualizado em · 5 min de leitura

Celular com aplicativo de mensagens aberto

Fazer publi de bet ficou caro para a imagem de influenciador. Uma pesquisa do More in Common com a Ipsos-Ipec, feita de 4 a 8 de julho com 2 mil pessoas de 16 anos ou mais em 130 cidades, mostrou que 51% dos brasileiros têm opinião negativa sobre quem anuncia casa de aposta, contra só 9% de opinião positiva, segundo reportagem da BBC News Brasil republicada pelo Correio Braziliense. A margem de erro é de 2 pontos.

E a turma não economizou nos adjetivos. Entre os que reprovam, 22% chamaram esses influenciadores de irresponsáveis, egoístas ou manipuladores, 17% disseram que eles exploram os seguidores e 8% resumiram tudo como interesse próprio. Na pergunta fechada, 40% afirmaram que passaram a confiar menos (ou nada) em artista, atleta e influenciador que faz esse tipo de propaganda. Entre quem tem curso superior, o índice sobe para 48%.

Pablo Ortellado, diretor do More in Common no Brasil e professor da USP, foi direto ao ponto na mesma reportagem: quem topa a publi troca “um ganho certo hoje, por um desgaste de reputação”.

O cabeleireiro que processou Virginia, Deolane e Carlinhos Maia

A pesquisa ganhou cara com o caso de Isaac Pinto de Andrade, cabeleireiro de 43 anos de Campinas. Em junho ele entrou na Justiça dizendo ter perdido mais de R$ 100 mil em apostas e pediu reparação de três empresas intermediárias e de três nomes graúdos: Virginia Fonseca, Deolane Bezerra e Carlinhos Maia. “Eu tinha casa própria, eu tinha um salão de beleza”, contou à BBC.

O desfecho, por enquanto, foi bom para os famosos. O juiz Bruno Gonçalves Mauro Terra, da 5ª Vara Cível de Campinas, tirou os três influenciadores e duas das empresas do processo sem julgar o mérito, e a ação segue só contra uma companhia. As assessorias de Virginia e Deolane não comentaram. A defesa de Carlinhos Maia disse que a decisão confirma que não há base legal para responsabilizá-lo.

O que o governo mudou em julho

Se no tribunal a conta ainda não chegou para os influenciadores, nas regras de publicidade ela chegou. O Ministério da Fazenda publicou em 10 de julho duas normas, segundo o próprio ministério:

Norma O que exige Desde quando
Portaria SPA/MF nº 1.964/2026 Toda peça de bet traz um de três avisos (“Apostar pode causar dependência”, “Apostar faz você perder dinheiro” ou “Aposta não é investimento”), ocupando pelo menos 10% da área ou da duração 17 de julho de 2026
Portaria Interministerial MF/SECOM/MJSP nº 73/2026 Proíbe divulgar operador sem autorização, propaganda enganosa, aposta vendida como investimento ou renda e conteúdo voltado a menores de 18 anos 10 de julho de 2026

O pulo do gato está na portaria 73. Pela primeira vez, plataformas, agências e influenciadores têm dever próprio: precisam verificar antes de fechar contrato se a bet anunciada tem autorização para operar no Brasil e deixar essa informação disponível ao público, conforme resumo da Abert. A Fazenda contava cerca de 85 empresas autorizadas em julho, e a lista fica no site do ministério. Comentarista que incentiva aposta num jogo específico também entrou na mira.

Na prática, o story com cupom de desconto ficou mais trabalhoso. Uma análise publicada pelo Maringá Post em 23 de setembro lista o que muda para afiliados: link e código promocional passam por revisão antes de ir ao ar, o contrato e a versão aprovada precisam ser guardados, e o aviso obrigatório não pode ficar escondido na legenda. Promessa de dinheiro fácil e print de prêmio antigo para atrair novos apostadores estão vetados.

O Conar, que cuida da autorregulamentação publicitária, também apertou. Em 27 de agosto aprovou uma atualização do Anexo X do código, o capítulo das apostas, com programa de credenciamento e monitoramento das postagens de influenciadores e afiliados, segundo o escritório Kasznar Leonardos.

Ortellado achou as mudanças “bem-vindas, mas não são suficientes”. Do outro lado do balcão, Plínio Lemos Jorge, presidente da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), argumentou à BBC que a percepção do público muda muito conforme o influenciador trabalhe para operador licenciado ou ilegal.

A Lei 15.325 virou profissão, mas não responsabilidade

Em 6 de janeiro, Lula sancionou a Lei 15.325/2026, que cria a ocupação de “profissional multimídia” para quem cria, produz, edita e distribui conteúdo digital. A ideia veio do PL da deputada Simone Marquetto (MDB-SP). A lei dá nome à profissão na carteira de trabalho, mas não exige diploma, não cria regime de imposto e não muda nada sobre quem responde por conteúdo enganoso, explicaram advogados ouvidos pelo Poder360. A advogada Elvane Romano resumiu: a lei “não traz nenhuma nova responsabilidade sobre essa situação”. Para isso continua valendo o Código Civil e, no caso das bets, o Código de Defesa do Consumidor, que a Fazenda citou como base para órgãos de defesa do consumidor agirem contra todos os envolvidos na propaganda.

E a CVM? Ainda devendo

O título que este texto tinha em agosto prometia regra nova da Comissão de Valores Mobiliários, e ela não saiu. A CVM pôs os “finfluencers”, criadores que falam de investimento, na agenda regulatória de 2026 ao lado de tokenização e suitability, mas até setembro nenhuma norma específica tinha sido editada, segundo levantamento do Observatório de Redes Sociais, que aponta uma nova consulta pública planejada para fechar o diagnóstico. O advogado Alexei Bonamin, sócio do TozziniFreire, disse à Capital Aberto em janeiro que o tema é “algo para ontem”.

O assunto se arrasta desde 2023, quando a autarquia publicou um estudo sobre influenciadores e mercado de capitais e abriu a Consulta Pública SDM nº 04/2023, conceitual e sem texto de norma, encerrada em 1º de março de 2024. Enquanto isso, a CVM pune caso a caso com a regra que já tem. Em 2024 multou a WeMake e o sócio Evandro Correa em mais de R$ 5,8 milhões e os afastou do mercado por 39 meses, por oferta irregular de criptomoeda a cerca de 20 mil investidores, que puseram mais de R$ 18 milhões no esquema.

O que fica valendo para quem posta

Quem faz publi de bet hoje precisa checar a autorização do operador na lista da Fazenda antes de assinar, colocar o aviso obrigatório no tamanho certo e guardar contrato e peça aprovada. Quem fala de investimento continua sem regra específica da CVM, mas responde se vender oferta não registrada. A próxima peça do quebra-cabeça é a minuta dos finfluencers, prevista na agenda de 2026, que tem menos de três meses para sair dentro do prazo.

Fontes

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