Morte de Netinho: cantor de "Milla" morre aos 60 anos em Salvador
Artista do axé enfrentava um linfoma não Hodgkin desde 2025, com evolução para falência renal e de múltiplos órgãos. Velório e cremação serão reservados, por desejo dele
Bianca Ferrazassinatura editorial do CityTudo13 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

A morte de Netinho, confirmada nesta terça-feira (13), em Salvador, tira de cena um dos nomes mais populares da axé music nos anos 1990. O cantor tinha 60 anos e enfrentava havia mais de um ano um câncer do sistema linfático. Segundo o g1 Bahia, a assessoria do artista informou que o quadro de linfoma não Hodgkin do tipo B evoluiu para falência renal e disfunção múltipla de órgãos.
O que se sabe sobre a morte
Netinho morreu em um hospital da capital baiana. A assessoria divulgou um comunicado dizendo que ele partiu tranquilo. O velório e a cremação serão reservados, restritos a familiares e amigos próximos, e isso atende a um desejo expresso do próprio cantor, de acordo com a mesma reportagem do g1. O Correio Braziliense também publicou que ele havia deixado definido, antes de morrer, como queria que fossem o velório e a cremação, conforme relato da assessoria.
Não haverá a despedida pública que costuma acompanhar a morte de artistas desse porte na Bahia. Fãs e colegas têm usado as redes sociais para o adeus.
Frase repetida nos últimos meses
Ainda de acordo com o g1, a assessoria contou que Netinho repetia durante o tratamento uma frase sobre a própria morte: “Partirei feliz, realizado, pois a vida me deu muito mais do que eu sonhei. Levarei comigo o sorriso de cada fã que foi feliz com a minha arte.”
A equipe do cantor disse que ele já sabia que estava partindo, segundo a reportagem do Correio sobre a mensagem que ele deixou.
Do diagnóstico à recaída
Netinho anunciou em 22 de março de 2025 que tinha um câncer do sistema linfático. A descoberta veio depois de uma internação no Hospital Aliança Star, em Salvador, por causa de fortes dores nas pernas. Ele mostrou as etapas do tratamento pela internet, inclusive o momento em que raspou o cabelo, como lembra o g1.
A doença entrou em remissão e voltou em 2026. O g1 Saúde descreve que o câncer reapareceu de forma mais agressiva, segundo o próprio cantor. Em julho, ele completou 60 anos e lançou o álbum ao vivo “Grandeza e simplicidade”, gravado em dezembro de 2025, segundo o blog de Mauro Ferreira no g1. Depois vieram novas internações em Salvador.
Reportagens publicadas nas semanas anteriores já falavam em nona sessão de quimioterapia e no plano de um transplante de medula óssea, dentro de um protocolo de 16 sessões. O desfecho veio antes de o plano se completar.
O que é o linfoma não Hodgkin
O g1 explica que o linfoma não Hodgkin reúne mais de 40 tipos de câncer, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca). Alguns evoluem devagar, outros de forma agressiva. Os sintomas mais comuns são aumento dos gânglios, febre, suor noturno, perda de peso e cansaço. A Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale) calcula que as chances de cura fiquem, em média, entre 60% e 70%, variando conforme o subtipo e a extensão da doença.
Para quem tem recaída, o hematologista Guilherme Duffles, da Unicamp, explicou ao g1 que o tempo de remissão pesa na evolução: quem recai logo depois de terminar o primeiro tratamento costuma ter um quadro pior do que quem passa muito tempo sem sinais do câncer.
Em reportagem separada, o g1 lembra que a terapia CAR-T, que reprograma as células de defesa do próprio paciente, já existe no Brasil para alguns linfomas, mas custa de R$ 2 milhões a R$ 4 milhões e está disponível em poucos centros. O texto afirma que não há informação pública sobre se Netinho chegou a ser avaliado para esse tratamento.
A carreira que fez dele um galã do axé
Ernesto de Souza Andrade Júnior nasceu em Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo baiano, em 12 de julho de 1966. Aos 10 anos foi para Salvador. Ganhou o primeiro violão da mãe aos 14 e, aos 16, entrou no curso de Engenharia Civil da Universidade Católica do Salvador, enquanto fazia pequenos shows em escolas e depois em bares, com repertório de MPB e bossa nova, conforme o g1.
Em 1988, estreou como vocalista da Banda Beijo no Carnaval de Salvador e emplacou “Beijo na Boca”, o primeiro grande sucesso. Na banda, também cantou “Barracos (Escombros)”, de 1992. A carreira solo começou em 1993, e o crítico Mauro Ferreira lembra no g1 que a gravadora Philips o promoveu como o galã do axé, com o álbum “Um beijo pra você” e o hit “Capricho dos deuses”.
O auge veio em 1996, com o disco ao vivo “Netinho ao vivo!”, que ultrapassou 1 milhão de cópias e projetou “Milla” em todo o país. A música, de Manno Góes e Tuca Fernandes, tinha sido lançada em 1995 pela banda Jheremmias Não Bate Corner. Na voz de Netinho, virou um dos símbolos do gênero e levou o artista a se apresentar na Itália e no Chile. Mauro Ferreira ressalva que seria injusto reduzir o cantor a esse sucesso e cita ainda “Preciso de você”, de 1995, e “Me leva”, de 1997.
Como empresário, Netinho abriu um estúdio de gravação e mixagem no Rio de Janeiro, por onde passaram Maria Bethânia, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Laura Pausini e Lenny Kravitz. Criou também um selo para lançar artistas baianos novos.
Os períodos difíceis
Em 2013, Netinho sofreu três acidentes vasculares cerebrais, que afetaram a voz, seu principal instrumento. Ficou quatro anos sem se apresentar no Carnaval de Salvador. Em 2010, tinha falado publicamente sobre sua bissexualidade. Dois anos depois, no Fantástico, disse que preferia não se prolongar no assunto: “Eu acho cafona ficar falando sobre isso. Não tem muito sentido”.
Entre 1997 e 2003, foi casado com a jornalista Mariana Trindade, com quem teve a filha Bruna Trindade. Nesta terça, ela publicou uma homenagem com uma foto da infância e a frase “Te amo para sempre”, segundo o g1.
Na política, ele se candidatou a deputado federal pelo PL em 2022, teve cerca de 31 mil votos e ficou como suplente. Apoiou Jair Bolsonaro e participou de ao menos um ato em 2021, posicionamento que lhe rendeu críticas. Mauro Ferreira escreve que, nos últimos anos, o cantor ficou isolado no meio artístico por conta dessas posições, e que o disco de 2026 o levou de volta aos sucessos do passado.
Homenagens
A cantora Cláudia Leitte se despediu pelas redes: “Descanse em paz, meu irmão”, conforme o g1. O jornal Estado de Minas reuniu mensagens de outros famosos, entre eles Andrea Sorvetão, Fausto Franco e Magno Malta, e o OFuxico registrou a onda de homenagens e carinho entre artistas. Os clubes Bahia e Vitória também se manifestaram, de acordo com o portal BNews.
Até a publicação deste texto, a assessoria não havia divulgado data ou local da cerimônia reservada. Novas informações devem sair por comunicados da equipe do cantor.
Fontes
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